Podcast Nômade 038: Roca no Mundo, por Rogério e Camila
Entrevistados: Rogério e Camila
Episódio lançado em: 28/10/2019
Música de Abertura: - Eclipse Total (Capim com Mel)

No exato momento em que eu acabei de gravar a entrevista com o Rogério e a Camila do projeto Roca no Mundo, eu me senti muito feliz. Eu me senti privilegiado. De alguma forma, eles despertaram em mim um sentimento em mim tipo quando a gente vê a Glória Maria nas mais altas aventuras, nos locais mais deslumbrantes do mundo em algum programa do Globo Repórter, ou quando assistimos algum canal no Youtube sobre locais maravilhosos do mundo que a gente não fazia ideia de que existiam. Neste caso, eu finalmente descobri a África!

Eu sempre gostei de história e geografia. Tinha diversas noções de contextos históricos, primeiros homo sapiens, Egito antigo, movimentos escravagistas, Nelson Mandela e até o Rei Leão, mas todas essas referências africanas citadas acima compõem apenas meu imaginário do que seria a África, mas não refletem o contexto atual. Rogério e Camila me deram de presente uma aula, e até hoje eu simplesmente me sinto bem quando lembro dos sentimentos que eu tive ao produzir esse episódio de número 038.

No momento em que gravamos, o casal Roca estava a quase 10 meses na África. Um professor de geografia e uma enfermeira que se conheceram em São Paulo e por um tempo montaram o próprio hostel, em um belo dia Rogério e Camila decidiram venderam o hostel, pegaram o dinheiro e foram para África do Sul, uma das portas de entrada do continente mãe.

Na África do Sul eles alugaram um carro e começaram a subir pelos desertos escaldantes da Namíbia, seguindo por Botsuana, Zimbábue, Zâmbia, Tanzânia, Ruanda e Uganda, onde eles se encontravam no momento em que gravamos nossa entrevista.

Ouvindo eles, eu descobri que a Namíbia é um país para quem gosta de aventura. É muito seco e tem muitas oscilações de temperatura ao longo do dia, podendo ter dias escaldantes e noites congelantes (um paraíso do choque térmico!).

A palavra Namíbia é uma variação da palavra Namib na língua local Nama, que significa literalmente “lugar vasto e desolado”. Não a toa a Namíbia tem o deserto mais antigo do mundo, além de ter excelentes áreas de safari.

Apesar de Rogério e Camila terem alugado um carro com barraca, eles subestimaram o calor e ficaram impressionados como o calor trava nossos corpos. É importante ter cuidado, pois tem umas janelas climáticas onde tem temporais e até neve em determinado momento do ano. São km de uma solidão laranja e de um convite à auto reflexão.

Seguindo para Botsuana, eu descobri que este é um país desafiador para viajantes independentes, pois só é possível viajar por lá com pacotes turísticos. O governo de Botsuana tem uma estratégia que tenta diminuir o turismo em massa aumentando muito os preços. O casal Roca passou apenas 15 dias em Botsuana, mas foi o país até o momento da entrevista que eles mais curtiram ao logo daqueles 9 meses de África.

É em Botsuana que se encontra o Delta do Okavango, um rio que nasce em Angola e deságua dentro do continente. E é isso mesmo que você leu, um rio que não deságua no mar, mas sim dentro da massa continental. Enquanto eles falaram do itinerário, eu segui suas histórias com o Google Maps aberto para ter uma visão das estradas, roteiros e formações geológicas que me eram descritas. Sensacional!

Sobre custos africanos, eles ficaram mal acostumados no início, pois começaram na África do Sul onde é mais barato. A Namíbia é “ok”, mas a partir de Botsuana os custos começam a encarecer mais. Além de exigir um carro 4x4, tudo é um tal de “50 dólares” por pessoa para qualquer programa turístico. Para você ter uma noção, para pôr os pés no Monte Kilimanjaro e trilhar por 8 dias, é necessário desembolsar 1600 dólares.

Com o passar dos dias, o peso dos preços da África aguçou veia empreendedora do casal, fazendo com que eles começassem a transformar a viagem deles em um negócio, onde eles começaram a fazer parcerias, utilizando a audiência que eles conquistaram ao expor sua viagem, para fazer marketing digital, em troca de serviços turísticos como alimentação, transporte e hospedagem.

Uma coisa muito interessante que eu me dei conta a medida que conversávamos é que a África nunca foi ponto de cobiça muito comum entre brasileiros (pelo menos não do meu ciclo). E talvez por isso que meu impacto com cada detalhe desse programa era tão fascinante, mas o turismo é uma atividade aparentemente bem estruturada “para países de primeiro mundo”, pela África. Algumas atrações são simplesmente caríssimas (para padrões brasileiros) e tem que reservar com 3 meses de antecedência. O tracking com gorilas em Ruanda, por exemplo custa 1500 dólares por dia para cada pessoa.

Sobre comunicação, o casal Roca se virou bem apenas com o inglês. O swahili também é uma língua bem difundida e eles aproveitaram para passar um tempo em uma tribo sem água ou energia, chamada Masai, localizada no Quênia, onde eles se comunicaram apenas com mímica por dias. É revelador ver como a comunicação simplesmente flui.

Ainda falamos muito sobre a cartografia, geologia, geografia e hidrografia da África. Eu fiquei “perclecto” (e aqui eu estou falando a palavra perplexo errado mesmo, feito no meme; não me tome por ignorante), quando descobre que toda aquela imagem de uma África desértica, onde as pessoas tem que caminhar quilômetros para ter acesso a uma lata d’água não se deve à escassez da água, mas sim à má distribuição das bacias fluviais e mananciais existentes em excesso no coração do continente.

Acompanhando a entrevista com o Google Maps aberto ao lado, eu percebi que de fato existem diversos rios e lagos por vários países, mas aparentemente a distribuição dessa riqueza ainda é muito precária. Falamos de desigualdades sociais e pobreza extrema, vulcões e processos tectônicos… enfim, uma aula de África! Rogério sente que é como se a África de maneira geral tivesse um delay de 20 a 30 anos do Brasil. Talvez daqui a 20, 30 anos a África vai ser o Brasil de 2020 (tipo… super bizarro!).

Por outro lado, existe uma força que tem provocado um avanço no continente mãe. A melhora da África pode ser descrita em uma palavra chamada “China”. O país dos tigres asiáticos tem investido bastante no desenvolvimento de diversos países africanos, levando construções, infraestrutura, mobilidade, tecnologia, saneamento entre outras coisas que tem colocado a África nos trilhos.

O preço disso? Oportunidade. Existe hoje uma expressão engraçada que é “A África é a China da China!”. Estamos acostumados em terceirizar a manufatura do mundo para fábricas chinesas. Pois bem, aos poucos a China está terceirizando parte dessa manufatura para países africanos, afinal de contas, não é surpresa imaginar que um continente repleto de desigualdades e precariedades esteja aberto a se submeter ao imperialismo chinês por um avanço mínimo de sua qualidade de vida.

A China está investindo pesado na África, pois os chineses estão visando os recursos naturais da África, e em contrapartida está levando infraestrutura, estradas, habitações, fábricas. Segundo Rogério, aparentemente 90% das grandes obras africanas são de iniciativa chinesa. Ao longo dos países é visível inúmeros outdoors, campos de obras com caracteres, e bancos chineses.

Eles pegaram um trem da Zâmbia até a Tanzânia. Faz jus aos estereótipos da África. Viagem de 4 dias, onde o banheiro da primeira classe é apenas um buraco no chão, onde os dejetos são largados nos trilhos. Esse trem é o primeiro grande projeto da China na África, para transportar minérios.

Acompanhemos com mais atenção o continente mão, pois é visível que nos próximos anos a África será um importante palco da geopolítica internacional. Agora no início da década de 2020, já é visível um declínio do imperialismo norte-americano, que perde espaço na influência cultural para países como a Coréia do Sul (na música e no cinema) e também na hegemonia de mercados, visto que a China ganha cada vez mais espaço.

A África, explorada por muitos séculos continuará a ser utilizada como um importante campo de exploração. Já foi usurpada por europeus, e agora será dominada pela Ásia. De onde estou, acompanho atento.

Gostou dessa reflexão? Ouça o episódio 038 na íntegra aqui:

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