Podcast Nômade 037: Pulando fogueira, por Bruno Brant
Entrevistados: Bruno Brant
Episódio lançado em: 28/10/2019
Música de Abertura: - Knights of Cydonia (Muse)

Em meados de junho de 2020, eu liguei para meu irmão Vítor. Ele joga RPG com alguns amigos em comum, inclusive a Camila Veloso do episódio 019 e na ocasião, ele relatou que um amigo nosso em comum lhe revelou que não gosta de ouvir o Podcast Nômade. Disse que tem a impressão de que é um podcast de gente rica, que eu só entrevisto pessoas bem sucedidas, que para ser nômade temos que ter muito dinheiro e que isso lhe incomoda de alguma forma.

Esse nosso amigo passou uma temporada nos Estados Unidos, e por ele, ele voltava imediatamente para lá, para trabalhar (novamente) com qualquer coisa… Algo beeem imigrante. De pronto eu pensei justamente porque eu criei o Podcast Nômade. Eu estava cansado de encontrar imigrantes com suas labutas de imigrantes, ou intercambistas com seus desafios de intercambistas.

A mentalidade do imigrante é focada na estabilidade, e as vezes, parece simplesmente impossível para pessoas assim, simplesmente aceitar que algumas pessoas se jogam no mundo e viajam dezenas de países. Esse tipo de estilo de vida só é permitido aos bem sucedidos financeiramente.

Claro que estruturar financeiramente amplia a longevidade do estilo de vida nômade. Eu aproveito para reforçar… não é apenas uma questão de quanto dinheiro você consegue juntar, mas de quanto dinheiro você consegue fazer mensalmente, de forma completamente remota.

Apesar disso ser algo cada vez mais esclarecido, ao menos para pessoas que se permitem ler sobre nomadismo, ou ouvir podcasts como esse aqui, ainda sim, é notório perceber o quão estigmatizado é o estilo de vida nômade para quem não se arrisca. “É coisa de gente rica, de playboyzinho, white people problems...”.

Eu chego a cogitar o quão sadia é a relação de pessoas que pensam assim com dinheiro, enriquecimento e prosperidade financeira. A gente que nasce no Brasil sabe da desigualdade social, da pobreza extrema. A gente cresce nutrindo uma aversão aos mais bem abastados. Algumas pessoas que alcançam prosperidade preferem se manter “low-profile”. Eu mesmo conheço diversos nômades que não se sentem confortáveis de postar suas andanças pelo mundo nas redes sociais. Conheço pessoas que deixaram de me seguir, simplesmente por eu ter viajado para fora do Brasil.

Sabe de uma coisa… Eu te agradeço de estar lendo essas páginas aqui. Você pode de fato ser muito privilegiado(a), ou simplesmente você está buscando alcançar esse nível de privilégio. De fato, para o contexto Brasil, é um privilégio poder viajar, ser financeiramente organizado, mas isso não significa que a gente que almeja isso está errado. Não somos pessoas piores simplesmente por querer termos uma vida mais agradável.

Mas que isso, você que chegou até esse parágrafo, certamente já captou inúmeras histórias de pessoas bem sucedidas (financeiramente), outras nem tanto. O ponto é que você que se permitiu ler essas histórias sabe o quão falacioso é essa história de que nomadismo é só para gente rica. E assim eu começo a história do Bruno Brant, convidado do episódio 037.

Bruno é mais um desses casos que não se identificam como “nômade digital”, mas após ouvir vários episódios do Podcast Nômade ele percebeu que era de certa forma um nômade sim. Sua história viajeira não começa dentro da opulência da sua conta bancária, muito pelo contrário, ele teve um desligamento profissional e decidiu viajar a américa latina com o dinheiro da rescisão.

Como se isso já não representasse falta de preparo financeiro o suficiente, esse dinheiro da recisão nunca chegou. Bruno era sócio de papel da empresa do pai, onde para o governo ele era configurado como empresário, e portanto não conseguiria tirar o dinheiro da rescisão.

Mesmo assim ele caiu no mundo. A vontade inicial era ficar apenas 8 meses viajando, mas sua primeira jornada nômade durou 1 ano e 4 meses. Nada mal para alguém que caiu no mundo sem planejamento nenhum.

Na realidade, essa história de estender a viagem é algo bem normal. A gente planeja um determinado período para viajar, mas quando sente o gostinho da liberdade e experimenta outros pedaços do mundo, é natural querer ampliar nossa itinerância. Bruno ainda não teve sua 2ª jornada nômade, mas ele aproveitou esse primeiro contato com o mundo para se inspirar e naturalmente decidiu se organizar para da próxima vez que ele sair, ele quer ter uma renda remota recorrente.

Assim, eu fui construindo esse meu imaginário de que ser nômade é ter uma mente globalizada. Não se trata apenas de quantos carimbos temos no passaporte (se é que temos passaporte), mas sim de entender que o mundo é muito maior do que a bolha municipal que a gente cresce. Quando Bruno saiu pro mundo ele expandiu a mente e quando volta ele vê a própria cidade com outra cabeça.

Bruno pegou um avião de Belo Horizonte até Porto Alegre, onde desceu de ônibus até Montevidéu, capital do Uruguai. A ideia era fazer um trabalho voluntário em um hostel, porém assim que chegou no lugar, descobriu que tinha sido dispensado do serviço 2 dias antes.

Nada mal para seu primeiro dia em outro país, sem dinheiro, sem falar a língua nativa e sem trabalho. Bruno saiu batendo literalmente de hostel em hostel perguntando se alguém queria trabalho voluntariado. Após algumas tentativas, ele finalmente conseguiu uma oportunidade e isso determinou sua estadia de 2 meses na capital do Uruguai.

Depois ele seguiu para Argentina, onde passou por várias cidades nesse esquema de trabalho voluntário. Foram mais 2 meses em terras hermanas, até que apareceu a oportunidade dele viajar para o Chile.

Havia um show da banda Natiruts no Chile, onde ele conheceu a uma baiana chamada Camila. Bruno se viu diante de uma oportunidade ímpar. Camila precisava viajar por cerca de 20 dias, e ofereceu a própria casa para Bruno, durante esse período para tomar conta do pet dela, enquanto ela dava um pulinho na Bahia. Bruno ganhou uma casa inteira e a companhia da gata Janis Joplin.

Para quem explora o mundo trabalhando de forma voluntária sabe a energia que é gastar frente a incerteza e constante adaptação. Ter uma casa só sua por 20 dias certamente recarregou as baterias do Bruno para seguir viagem.

Assim ele foi seguindo por cidades sul americanas, até que uma moça que ele conheceu em Montevidéu lhe ligou dizendo que ela estava grávida dele. Foi uma surpresa e tanto, e quando ele já estava se conformando com essa situação e assumido para sí próprio a responsabilidade da paternidade, a menina sumiu e disse que tinha errado nas datas e que o filho não era dele.

Bruno ficou completamente confuso, e por muito tempo ficou sem saber se deveria voltar para o Uruguai e pedir um teste de paternidade, mas decidiu deixar para la, afinal de contas a própria mãe disse que não era do Bruno. Quem sabe daqui a alguns anos Bruno não descobre que realmente era pai, ou essa história se perde no tempo.

Enfim, Bruno volta a Belo Horizonte. Volta mudado, como toda boa experiência de viagem nos permite evoluir. O tempo dele tem mais valor. Seu olhar para a cidade lhe faz aproveitar as pequenas coisas que sempre estiveram alí, mas ele precisou ir para for apara se dar conta.

Coisas que antes eram feitas no modo automático tem um novo significado. Uma caminhada pelas ruas, andar de transporte público. Coisas banais que uma vez que aprendemos a gerenciar nosso próprio tempo, a gente não se obriga a pegar transportes no horário do rush, então de certa forma, tudo fica mais leve.

A medida que a gente domina nosso próprio tempo, a gente pode usá-lo para dar mais leveza à nossa vida. A gente viaja o mundo e volta fora da caixa. A gente percebe que não precisa ir no ritmo da nossa cidade.

Para Bruno viagens de fim de semana não tem mais sentido. Essa coisa de fazer uma viagem rápida com pressa para voltar na segunda para bater cartão. Isso perdeu o sentido. É apenas uma forma de compensarmos não estarmos vivendo a vida quando nos prendemos a rotina. Ele percebeu viajando que a vida continua existindo fora e por isso, não tem mais sentido se prender a um trabalho onde a gente mal pode ver a vida passar.

Eu mesmo ficava doente se eu trabalhava em um local onde não tinha janela e eu não via o dia passar. Acho que pior do que ver dia após dia passar na frente de uma janela é nem isso. Eu me lembro de uma vez que eu passei em uma entrevista de uma empresa de tecidos, onde não havia janelas, eu não podia usar smartphone ou simplesmente dirigir a palavra à colegas do lado. Eu literalmente fugi dessa “oportunidade”.

Bruno ainda relatou vários locais por onde ele trabalhou, onde os patrões valorizavam pontualidade e não entrega. Com o tempo ele foi vendo que ele isso não tinha sentido. Essa jornada trabalhando em muitos hostels na américa latina ensinou ao Bruno à lidar com outras pessoas e a valorizar o seu próprio tempo. Com o tempo de trabalho, mas também com o tempo ocioso.

Vamos entendendo melhor a passagem do tempo, a passagem do “nosso” tempo. Vamos entendendo que tudo é passageiro, lugares e pessoas. Trabalhar em hostels é exercitar o eterno desapego. Bruno enxerga hoje que pessoas em geral tem um sentimento de posse muito grande por dinheiro, posses materiais, relacionamentos. Quando nos conectamos constantemente com viajantes, percebemos uma conexão é mais forte, tanto porque logo logo a gente vai se separar, e o tempo joga contra a gente, mas também porque a gera essa empatia mútua.

Ao sair da caixa dos valores de “como deve ser um relacionamento” que a gente aprende. A gente pode ficar mais maduro e atento para novos relacionamentos. A gente está muito mais atento ao nosso parceiro, e não à nossa própria necessidade de estar com um parceiro. É o tipo de conhecimento que quem foca na imigração e portanto na estabilidade, muitas vezes deixa passar e acaba pre concebendo que viajar é coisa de gente abastada, quando na realidade é mais simples do que parece.

Gostou dessa reflexão? Ouça o episódio 037 na íntegra aqui:

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