Capítulo 049 - Transição para a vida nômade
Entrevistada: Vero Motti
Episódio lançado em: 20/01/2020
Música de Abertura: Synthwave Goose - (Blade Runner 2049)

Na ocasião que escrevo esse capítulo, já produzi mais de noventa episódios do podcast nômade. Me arrependo de não ter criado o hábito de escrever textos inspirados nos episódios desde o início do Podcast Nômade. Acho que seria muito mais fácil escrever esse livro assim. Talvez o livro contemplasse muito mais episódios.

Por outro lado, isso trouxe um distanciamento temporal entre a publicação e a escrita que pôde ser preenchido por um acúmulo de conhecimento sobre nomadismo. Se você chegou até esse penúltimo capítulo passando pela experiência de ouvir os episódios, certamente percebeu que o conteúdo é complementar. O livro não traz todo o conteúdo que os episódios contém, muito menos se limitou a ser apenas um resumo dos mesmo. Tem coisas nesses textos que não foram ditas nos episódios.

A vantagem que vejo de como esse livro foi concebido é justamente trazer um olhar mais apurado das conversas que eu tive com os convidados. Após dezenas de entrevistas, eu intuitivamente percebo que histórias como a da Vero Motti são meio que o modelo para a maioria das pessoas que adentra no nomadismo.

Publicitários, desenvolvedores, profissionais de marketing digital, que por meio de esforço próprio e estratégias diversas, conseguiram adaptar suas profissões para um modelo de trabalho remoto, se permitindo assim viajar pelo mundo.

Natural de Ponta Grossa, estado do Paraná, Vero Motti começou sua carreira profissional trabalhando no Brasil com planejamento e conteúdo para instagram. Trabalhou em diversas empresas e aos poucos foi amadurecendo a possibilidade de trabalhar remotamente e ser uma nômade digital.

A história da Vero é interessante porque me lembra de como o processo não é instantâneo. Já tive oportunidade de conhecer pessoas que consideravam o estilo de vida nômade. Muitos entrevistados de fato já eram nômades. Ter oportunidade de conversar de conversar com pessoas que estão vivenciando os altos e baixos das inseguranças do processo de adaptação para uma vida nômade é muito bom, porque faz a gente colocar os pés no chão. Ter mais clareza de que é um processo duro, e que as angústias não são exclusivas da gente.

A Vero está justamente vivendo sua transição. No caso, em parte, ela vinha conseguido adaptar seu trabalho como comunicadora estratégica para um modal remoto. Vero trabalha majoritariamente como uma freelancer. Agora ela dá novos passos na jornada de diminuir os freelancers e de fato ter um trabalho próprio, onde ela tenha o poder de escolher o cliente que ela deseja trabalhar. No caso dela, clientes que tivessem uma consciência de responsabilidade sócio-ambiental madura.

Por muito tempo a Vero e seu esposo passaram por um relacionamento a distância, pois ele morava em Porto Alegre. Foi após uma demissão que seu esposo despertou para a possibilidade de trabalhos remotos. Ao ver o esposo trabalhando remoto, a Vero se inspirou e começou nessa direção.

Eu venho de uma formação acadêmica no campo da ciência social aplicada da Administração. E se tem uma coisa que eu sei, uma coisa que eu sinto diariamente, é que faculdade não prepara a gente no que diz respeito à inteligência emocional necessária para iniciar e conduzir um negócio.

É natural sentir medos, receios, sofrer de picos aleatórios de ansiedade. Para Vero isso pesa bastante. Primeiro que ela sente que entrou muito cedo na faculdade. Bem como se jogou muito cedo no mercado de trabalho. Ainda mais na área de publicidade. Hoje, após gravar episódios como o #077 com o casal Pinduca e Joy, ou o episódio #086 com o Lucas Gini, especialista em trabalho freelancer e host do podcast Frila Podcast, eu tenho mais maturidade de compreender o quão nocivo é o ambiente de trabalho de agências de publicidade.

Horário fixo, constantes horas extras, se locomover para trabalhar em algo que poderia ser completamente feito de casa. Isso para não adentrar na pressão por resultados em trabalhos de natureza criativa, que muitas vezes acabavam  afetando o íntimo de profissionais que trabalhavam com publicidade. Para Vero essa vida não fazia sentido.

Uma coisa que pesava bastante para ela é o medo de estar desperdiçando sua vida pelo fato de ficar trabalhando por horas a fio na frente do computador. O famoso fear of missing out, ou em bom português, o medo de deixar as coisas passarem. Medo de ao tomar uma decisão estar abrindo mão de outras coisas maravilhosas que poderiam ser vivenciadas, caso nossa decisão contemplasse outras opções

Iniciar um empreendimento próprio assombra a gente de várias formas. Vero relata uma presença constante do que ela entende como síndrome do impostor. Um desconforto que faz a gente sentir que não somos bons o bastante. De não termos a expertise necessária para falar do que falamos, fazer o que fazemos. De não sermos merecedores de ser felizes.

Talvez o trecho mais íntimo desse episódio é quando Vero diz se sentir culpada de estar viajando e trabalhando ao mesmo tempo. Eu confesso que quando decidi de vez ter uma vida mais nômade, eu não me senti nenhum pouco culpado, mas de fato houve por muitos anos um sentimento de culpa que adiou muito mais do que deveria a minha decisão de ser nômade. Eu entendo a Vero. A culpa já incomodou você que está lendo?

Um truque da Vero é caminhar. Ela gosta de caminhar e tentar trabalhar de ambientes diversos como bibliotecas ou cafés, para amenizar e até evitar ansiedade.

A verdade é que tomar a decisão de ter uma vida nômade dói. O processo dói de diversas formas para pessoas com trajetórias diferentes, mas uma coisa é certa para todos, o processo costuma demorar. E aprender a lidar com a passagem do tempo é uma coisa que você pode ler esse livro mil vezes, você só aprende quando você trilha sua jornada, e sente cada segundo do tempo que sua jornada demorar.

O primeiro passo é agir. A estagnação é certeza para quem não age. Agir aumenta exponencialmente, talvez imensuravelmente as chances dos resultados virem, mas principalmente nos ensina que os resultados vem no tempo deles, e não no tempo que desejamos.

Vero brilhantemente cita que ”A gente está se colocando a favor daquilo que a gente quer, mas nem sempre a gente vai ver a mudança logo de cara, pois a mudança é muito sutil”. Quando menos a gente se dá conta, a gente já atingiu aquilo que a gente queria atingir, muitas vezes nem percebe que atingiu e já está novamente se angustiando na busca por outras coisas.

Hoje eu me sinto cada dia mais feliz quando penso nessas reflexões. De certa forma, ter tomado as rédeas da minha vida faz com que eu me dê mais valor enquanto pessoa e enquanto profissional. Eu determino o valor do meu serviço, e caso as pessoas reclamem eu fico tranquilo, pois eu quero trabalhar para quem me pague bem.

Para Vero, é importante que seus clientes e parceiros tenham a preservação do meio ambiente como prioridade. Ela acredita que uma tendência futura é de que cada vez mais nós seremos “Ecoshame”. Que a gente sinta cada vez mais vergonha de não sermos sustentáveis. A Vero quer clientes específicos que tenham essa responsabilidade sócioambiental

Episódios como o da Vero Motti são importantes para a gente se lembrar que a gente não está sozinho e que muitas outras pessoas trazem sentimentos bons e sentimentos ruins parecidos com os nossos e que a gente pode se conectar, que a gente pode compartilhar nossas reflexões e que a gente não precisa passar por nada sozinho.

Gostou dessa reflexão? Ouça o episódio 049 na íntegra aqui:

- - -

Cupom de desconto no AirBNB
Podcast Nômade
Fonohouse
Apoie