Capítulo 046 - Brasil x Reino Unido: diferenças políticas e econômicas
Entrevistado: Gui Ribeiro
Episódio lançado em: 30/12/2019
Música de Abertura: - Johnny B. Goode - (Marty Mcfly - Back to the Future)

Existe um ditado popular que fala que não se pode fazer uma promessa para pobre. Recentemente descobri um oposto equivalente que não se deve fazer dívidas com ricos. Este último tem sua graça no fato de que pessoas ricas, seja por mesquinharia ou educação financeira, terão mais cuidado e controle com suas entradas e saídas, e certamente não irão deixar uma dívida passar batida.

Já o primeiro ditado, além de jocoso e insensível, para dizer o mínimo, tem seu fundo de verdade ao simbolizar que pela natural condição de pobreza, o pobre carece das coisas e valoriza cada mínima oportunidade que lhe é prometida. Essa introdução é simplesmente para deixar registrado que ao conhecer o Gui Ribeiro, este me prometeu tomar uma na Inglaterra quando eu estivesse de passagem.

Já fazem alguns meses que tivemos essa conversa e talvez não tenha sido assim “uma promessa”. Talvez estivesse mais para um convite, mas independente da intensidade da proposta, essa e o tipo de expectativa que me marcou ao ponto de eu deixar registrada nesse livro.

Sem enrolar mais, o tom do início desse texto reflete o estado de espírito que o Guilherme Ribeiro me colocou. Uma pessoa agradabilíssima, daquele tipo de pessoa que você gostaria de ter no seu ciclo mais próximo de amigos.

Gui é aquele carioca típico com sotaque malandro carregado e de quebra possui um irmão gêmeo (O Greg) com um sotaque tão carregado quanto, apesar de um semblante aparentemente um pouco mais sério que o Gui.

Na altura que gravamos esse episódio, eu lembro que fiquei impressionado pois ele(s) era(m) a(s) pessoa(s) que eu conhecia que viajava(m) a mais tempo. Em 2007 eles se articularam e meteram o pé para se estruturar Reino Unido. Lá eles trabalham uma parte do ano para viajar outra metade.

Provavelmente esse foi meu primeiro contato pessoas que deliberadamente trabalhavam metade do ano para viajar a outra. Olhando hoje com mais distanciamento do período que eu produzi o episódio #046, eu compreendo que é uma excelente tática, pois além de o Reino Unido ter uma economia mais robusta, refletindo pela perspectiva de pessoas que tem como o ponto inicial de suas viagens o Brasil, o Reino Unido fica na metade do caminho. Além de ter o bloco econômico da zona do Euro ao lado, o que torna as possibilidades de viagem mais baratas do que para pessoas que tem que iniciar saindo do Brasil.

Eu e o Gui tivemos uma ótima conexão previamente à gravação do episódio, e junte isso com minhas inseguranças de produtor de conteúdo descritas no episódio anterior, não deu outra. Esse foi um episódio para dar uma extravasada. Foi o último episódio de 2019, o ano em que a gente já não era feliz, mas não fazia ideia de como era ser miserável (esse pe 2020, e se você sobreviveu a esse ano, sabe do que estou falando). O episódio #046 falou bastante de política (foi bem no período que Boris Johnson tinha vencido eleições para capitanear o parlamento britânico como primeiro-ministro).

Mas antes, vamos apresentar o Gui. Guilherme Ribeiro entrou na faculdade em 2002 juntamente com seu irmão Greg, ambos não concluíram o nível superior. Eles já andavam meio balançados por que um ano antes eles conheceram um viajante chamado Zizo Asnis, através da internet que trabalhava metade do ano em Londres, juntava grana e viajava a outra metade do ano ao redor do mundo. Eu nem preciso dizer que isso inspirou os gêmeos que anos mais tarde incorporaram descaradamente essa forma de viver.

Em 2007, após anos estudando a realidade de Londres, eles juntaram grana suficiente para passar apenas 1 mês e meio e simplesmente embarcaram rumo a terra da rainha. Sabe aquela frase de academia de artes marciais  “treinamento duro, combate fácil”? Então, após passar meses estudando a capital inglesa, mesmo em um ano em que a tecnologia portátil ainda não era capaz de impressionar como nos anos de 2020, Gui e Greg, em certeiros 15 dias já estavam com tudo resolvido, documentos, casa, trabalho.

Daí para frente começamos a conversar um pouco mais sobre a rotina inglesa, afinal de contas, eram mais de 13 anos vivendo metade do ano por lá. Na ocasião da gravação do Podcast, a Europa respirava o impasse do Brexit. Não que fosse um assunto novo. Na verdade, desde 2016 as coisas não se resolviam em relação a saída do Reino Unido da União Européia, 50% da população era a favor (por certo, manipulada pelo “Palpatine da extrema direita” Steve Bannon), e os outros 50% da população  não deram a atenção devida, deixando a oposição se fortalecer em número e argumento. A xenofobia só crescia.

Neste episódio, apesar de ser uma pessoa reservada nas minhas opiniões políticas finalmente tive coragem em assumir minha oposição a Bolsonaro e meu constrangimento diante de pessoas que apesar de tudo (APESAR DE TUDO), ainda apoiam aquele homem. Os meses que seguiram o episódio #046 só pioraram para o Brasil e sendo amante dos períodos perversos da ditadura militar de 1964, como Bolsonaro e seus apoiadores são, esses parágrafos podem ser um auto sentenciamento da minha parte.

Guilherme lembrou que esse sentimento não era apenas meu. Uma quantidade cada vez maior de pessoas que saem do Brasil e não querem mais saber do Brasil. Ele chegou a falar de uma cartilha que o Itamaraty preparou para brasileiros que voltam para o Brasil, após passar muito tempo morando no exterior.

Muita gente que imagina com fervor e nostalgia um país idealizado, mas para espanto de um número aparentemente grande de pessoas, a surpresa é tamanha ao constatar o óbvio de que a vida também seguiu para as pessoas que continuaram a morar no Brasil.

Muita gente sai do Brasil, passa temporadas longas no exterior e voltam achando que tudo será como era antes, e por mais que até tenham contato com pessoas próximas e recebam notícias de acontecimentos do lado tupiniquim, a verdade é que agora seus amigos amigos estão com filhos, alguns morreram, outros trocaram de cidade, de trabalho. O comércio muda, talvez aquele seu barzinho de outrora nem exista mais, as legislações avançam. O país que você deixou, não é o país que você está retornando.

Além disso, eu eo Gui trocamos figurinhas sobre o recente lançamento do ótimo The Great Hack, filme original Netflix, que explica o famoso escândalo da Cambridge Analítica (nome sugerido pelo “Palpatine da extrema direita” Steve Bannon), onde mostra como Alexander Nix, CEO da Cambridge Analitica, basicamente trouxe essa guinada da extrema direita em diversos governos do mundo, através da manipulação das pessoas nas redes sociais.

Foi uma guinada a direita tão brusca em tantos países em um espaço de tempo tão pequeno que parecia que as esquerdas lutavam com paus e pedras, enquanto a direita estava tomando caviar em algum bunker de luxo, enquanto comandava a narrativa e direcionava drones não tripulados carregados com bombas, armas químicas e lasers contra seus opositores.

Vivendo alguns meses após esse episódio, hoje eu tenho mais clareza de que a esquerda, que estava totalmente despreparada, ainda luta por muitas pautas diferentes, culminando na sua fragmentação, enquanto a direita consegue abrir mão do individualismo em prol de uma pauta comum (e colocar opções péssimas no poder, como foi o caso de Trump e de Bolsonaro).

Apesar de tudo, falamos também que as pessoas têm seus valores e depositam seus votos em quem levanta bandeiras favoráveis na representação desses valores. Representantes eleitos são um reflexo do que queremos, e quando nos vemos enganados, ludibriados, temos uma enorme dificuldade de admitir que erramos, o que faz com que a muitas pessoas continuam apegadas ao erro.

É bom deixar claro que apesar de ter profunda admiração pelo nível superior de civilidade que a Inglaterra tem em relação ao Brasil, eu não coloco nenhum país em um pedestal ou acho que existem pessoas melhores que outras. Porém “dai a César o que é de César”. Gui falou que no Brasil temos os chamados “sub-empregos”, enquanto no UK existe o conceito de Low-Pay-Jobs. Ou na tradução direta, ocupações que têm baixa remuneração.

Claro que deve ter algum inglês otário que se acha melhor do que pessoas que trabalham em Low-Pay-Jobs (gente otária tem em todo o mundo), mas de uma maneira geral, pessoas que trabalham nessas ocupações tem uma coisa que aparentemente é proibida para quem tem sub-empregos no Brasil: uma vida digna (e isso faz toda a diferença na busca por civilidade).

Gui trabalhou um tempão em low-pay-jobs. No início, os amigos cariocas deles não admitiam por que eles largaram a faculdade para “servir” os outros, mas com o tempo, a medida em que Gui e seu irmão começaram a viajar o mundo, seus amigos que ficaram pelo Brasil começaram a se dar conta de que no fim, ter low-pay-job no Reino Unido era muito melhor do que a vida graduada no Brasil (a carteirada do “engenheiro civil, melhor que você!” não cola na terra da tia Beth).

Por outro lado, gringos sempre se admiravam quando o Gui falava que no Brasil “ter um empregado doméstico” era normal. No Reino Unido um profissional desses é muito caro. Claro que no Brasil um trabalho doméstico é caro, isso é reflexo da escravidão. E se você estranhou quando eu escrevi essa classe profissional utilizando o gênero masculino, isso só reforça o que eu falei. A maioria é composta por mulheres negras. O sub-emprego da empregada doméstica é o reflexo mais certeiro do racismo e machismo estrutural que sustenta a sociedade brasileira.

Também pontuamos o fato de que fomos colonizados por cristãos católicos, e temos hoje em nossa cultura uma mentalidade sintetizada na frase a seguir, onde “é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”. Muitos brasileiros “maculam o dinheiro” como costuma frisar o Eduardo Amuri. Ficamos justificando “ah, isso aqui eu comprei em uma promoção” ou “olha essa pechincha”.

Segundo Gui, a classe alta ainda dificulta a vida das pessoas. Na Inglaterra, você trabalha de igual para igual com as pessoas que você serve. Um exemplo dado no episódio é que é comum um barman acabar seu turno, tirar o avental e o pano do ombro, ir para o outro lado do balcão e continuar bebendo ali mesmo. Na Inglaterra é comum os valores de salários serem mais iguais independente da área.

Um dia o Brasil vai ser assim?

Gostou dessa reflexão? Ouça o episódio 046 na íntegra aqui:

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