Podcast Nômade 001: Perdendo o Medo, por Lenilson Dos Santos
Entrevistado: Lenilson dos Santos
Episódio lançado em: 04/02/2019

Vinte seis de fevereiro de dois mil e vinte. Escutei novamente o episódio nº 001, que gravei presencialmente com o Lenilson dos Santos, engenheiro de desenvolvimento que largou a escola no segundo ano do ensino médio e iniciou a vida nômade bem mais cedo do que qualquer outro nômade que eu conheci. Lenilson é um pequeno alien. Se toda regra tem uma exceção que justifica a regra, Lenilson é essa exceção, ele é literalmente “o” ponto fora da curva!

Na época em que gravamos esse episódio, calhamos de estar em Bucareste e este foi um dos raríssimos episódios gravados de forma presencial. Estávamos no meu AirBNB, colocamos meu smartphone da época em cima da mesa e de forma totalmente sem pauta ou pretenção, iniciamos um trabalho que hoje muito me orgulha, o Podcast Nômade e sua evolução natural: a Nomadesfera (o mais curioso é que hoje, dia 26/02/2020 eu vou apresentar o protótipo da plataforma da Nomadesfera para 3 desenvolvedores, pois no momento em que escrevo a Nomadesfera ainda é apenas um projeto, mas sei do poder de realização que a imaginação humana permite, já registro esse escrito ciente da concretização de mais esse projeto).

Bucareste - Romênia

Não vou me estender por questões técnicas do podcast em si, mas é notório a evolução do primeiro episódio até os atuais, tanto na qualidade da captação de áudio, edição e principalmente, na minha postura enquanto anfitrião do podcast. Me perceber tão comedido no primeiro episódio chega a ser engraçado!

Mas voltando ao nosso primeiríssimo convidado, Lenilson na época com 18 anos já se relacionava com outros nômades desde cedo. Talvez seu trabalho como desenvolvedor também tornasse a perspectiva de uma vida nômade mais clara, do que a formação que eu tive em administração de empresas. Assuntos como trabalho remoto e nomadismo são mais naturais para Lenilson do que para mim, e talvez esse ponto associado à fatores pessoais colocaram o nomadismo na vida de Lenilson muito antes do que na minha vida.

Antes de sair do Brasil, Lenilson procurou se estabelecer em trabalhos remotos, e fez pequenos “estágios” de nômade, ou seja, ele começou a alugar sofás casa de amigos e parentes em diversas cidades, como uma forma de ir se adaptando à viver sempre em um contexto novo, e principalmente com uma mochila só.

Completamente diferente de mim, parece que Lenilson tinha algum passo-a-passo com dicas que eu ainda não tinha tido acesso. Os pequenos estágios foram apenas uma parte desse processo. Outro ponto muito importante foi um trabalho de preparação mental. Algo que com o tempo eu fui percebendo na fala de diversos entrevistados ser deveras importante para se adentrar na vida nômade.

Lenilson listou seus principais medos, para cruzar a linha do nomadismo de forma consciente. Basicamente me foi relatado 2 medos: o medo de não se haver dinheiro suficiente para perpetuar esse novo estilo de vida; e o medo do estresse de se viver viajando e não dar conta do trabalho.

Aparentemente o estresse de viver viajando é algo comum para iniciantes, mas a medida em que Lenilson fez seus pequenos estágios como nômade, ele pode explorar mais a faceta do trabalho remoto. Utilizando aplicativos que mensuram o desempenho em horas de trabalho, e associando isso ao fato de que em um contexto de home office, não se fazia necessário se arrumar para estar em um ambiente de trabalho, muito menos ter uma rotina de locomoção até o ambiente de trabalho, Lenilson percebeu um aumento significativo da sua produtividade, ponto que pôs em cheque a necessidade de se estar geograficamente preso à um ambiente de trabalho.

O medo de não ter dinheiro, de certa forma veio seguido de um grande ensinamento: mais importante que planejar a viagem, é fundamental replanejar nosso próprio estilo de vida, afinal de contas nomadismo não é trabalho, mas sim um estilo de vida. Ao longo de muitas entrevistas eu fui percebendo como esse novo estilo de vida nos trás disciplina e responsabilidade e isso foi algo que ficou claro desde o primeiríssimo episódio.

O ponto que internamente mais me doeu perceber no papo com Lenilson, foi o fator “amizades”. Eu sempre tive muita dificuldade de fazer novos amigos enquanto viajo, e inclusive foi a partir disso que o Podcast Nômade e a Nomadesfera surgiram, mas para Lenilson isso sempre foi muito natural. É interessante perceber como uma pessoa que já nasce conectada à internet tem muito mais facilidade de criar relações virtuais.

Acabou que ao longo da entrevista eu pensava internamente como ele já estava anos-luz na minha frente nesse aspecto e isso só reforçava o meu sentimento de total despreparo. Se por um lado, a vida nômade em si pode ser bem solitária, por outro, as conexões que são feitas acabam sendo muito mais intensas. Por ser minha primeira entrevista, minha primeira semana como um nômade, eu ainda estava muito curioso em questões básicas como amizades, e não entendia muito bem como seria possível construir relações fortes em um estilo de vida tão móvel?

Acho que esse foi o primeiro grande aprendizado que eu absorvi através esse trabalho com o podcast: a ilusão de que quando estamos em uma vida mais sedentária, nós temos nossos amigos e familiares a nossa disposição a qualquer momento.

Este foi um ponto que percebemos em comum. Antes de sair do Brasil, eu listei meus amigos mais próximos e longevos. E ao fazer isso, me dei conta de que muitos deles só os via em confraternizações ou feriados… 2, 3 vezes ao ano. Com Lenilson foi a mesma coisa. Sua família o questionou como seria o contato agora que ele estaria viajando, e tamanha foi a surpresa, quando todos perceberam que só se viam em ocasiões muito pontuais. O mais interessante dessa descoberta é que relações verdadeiras se mantêm, não importa a distância

Porto - Portugal

O ponto é que iniciar uma vida nômade é entender que os amigos antigos talvez não acompanhem essa mudança. É voltar a ter prazer em pequenas coisas como caminhar, e se dar conta de que muitos dos nossos hábitos sedentários se tratavam de uma tentativa de fugir de uma rotina que minava o prazer de viver. Mas que apesar de parecer poético, ser nômade é diferente de ser imigrante ou muito menos turista.

Nômades acabam se conectando muito mais rapidamente porque uma linha foi cruzada. Nômades, principalmente brasileiros, superam algo que eu apelidei de “síndrome da ilha”, pois algo que eu percebo no contexto Brasil, é que qualquer viagem internacional, é uma grande viagem, pois de um lado temos o oceano atlântico, e do outro temos um oceano de países “hispanohablantes”.

O nômade brasileiro supera essa síndrome, pois ser brasileiro é um simples acidente da aleatoriedade, mas que no fim das contas somos privilegiados, pois nosso passaporte é muito poderoso (pelo menos enquanto nosso governo não destruir as boas relações que o Brasil tem com outros países). No fim, ser brasileiro tem um estado de “alerta” natural, ou em outras línguas, uma malandragem, que nos torna espertos às armadilhas do mundo.

Porém ao ser nômade, percebemos que no fundo, tudo se trata de uma“pulo alí na esquina” e qualquer problema, basta pegar um avião e em algumas horas, estaremos de volta ao ninho. Afinal de contas, nós podemos assistir todos os documentários do mundo, nada disso substitui o aprendizado que teremos estando presencialmente em novos lugares.

Gostou dessa reflexão? Ouça o episódio 001 na íntegra aqui.


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