Capítulo 044 - Oceanografia, um trabalho nômade
Entrevistada: Vanessa Lima
Episódio lançado em: 16/12/2019
Música de Abertura: House by the Sea - (Moddi)

Após 43 episódios intuitivamente eu estruturava o que seria um nômade padrão. Aí chegou a Vanessa Lima. E daí para frente eu sempre jogo Vanessa em alguma conversa. Na moral, Vanessa me apresentou uma realidade nômade nova e desde então ela o mais próximo da Nasa (sim a Administração Nacional da Aeronáutica e do Espaço, norte americana) que eu conheço.

Quando falamos de freelancers, em geral imaginamos um profissional com seu notebook fazendo algum conteúdo ou projeto e tomando um café no lugar de água. Meu irmão Vítor inclusive brinca que freelancers comem caviar por um mês e passam os próximos 3 meses revirando lixo (claramente meu irmão não é freelancer, pois ele nunca provou caviar...), mas a Vanessa é um tipo diferente de freelancer.

Vanessa trabalha embarcada a 3 anos e se percebe nômade a 2.

Pior que isso, está pagando a própria língua, pois certa vez disse que não seria nômade, e hoje, não só se percebe nômade, como também teve sua audácia registrada em podcast e agora neste livro de nomadismo. Vanessa é oceanógrafa. Ela trabalha embarcada “offshore”, que é um tipo de trabalho onde os profissionais trabalham em navios, barcos, cruzeiro, cargueiros…(curiosidade: quem trabalha em plataformas também é “embarcado” apesar de claramente uma plataforma não ser um barco).

Vanessa estudou várias coisas dentro de oceanografia, mas se especializou em geologia. Ela trabalha com instalação e inspeção de relevos submarinos. Eles escaneiam o relevo submarino para instalar tubulações de fibra ótica, oleodutos, fazendas de energia eólica.

De tempos em tempos é necessário escanear para ver se tem algum problema. Vanessa é responsável pela análise dos dados. O tipo de profissional que aparece nos 2 minutos de algum filme de tragédia natural, antes do Dwayne Johnson (o The Rock!) aparecer e parar a tsunami com um socão.

Vanessa se recusa a dizer que é de Cuiabá, mas ela é de lá sim (e que fique registrado no livro). O Pai dela trabalhava em banco e na infância ela se mudou muito. Até se mudar para o Espírito Santo e começar a trabalhar em obras portuárias, com o objetivo de juntar dinheiro para mochilar.

Foi assim até finalmente começar a aparecer oportunidades para trabalhar embarcada, o que lhe permitiu viajar para mais longe. Ela iniciou uma pesquisa no linkedin sobre como mandar currículos para agências internacionais, que conecta oceanógrafos freelancers com barcos e assim já conheceu todos o mares do planeta terra (talvez não tenha conhecido tooodos os mares… mas deixa eu dar uma melhorada na história dela...)

Eu sempre admiro pessoas que venceram a barreira linguística e trabalham com outros profissionais em inglês, ainda mais quando é um trabalho presencial. Apesar disso, Vanessa comenta que trabalhar em inglês, não foi um sofrimento, pois além do inglês de escola, muitos termos técnicos já são em inglês, a dificuldade mesmo foi aprender o inglês coloquial.

Atualmente o trabalho que tem sido mais recorrente é para empresas de engenharia que instalam o equipamento para indústrias petrolíferas. Apesar de que ela sempre tenta dar prioridade para indústrias de energia eólica, instalando verdadeiras windfarms, no meio do oceano.

O trabalho dela não envolve necessariamente a atividade do mergulho, mais sim um robô ROV (Um veículo submarino operado remotamente ou ROV (do inglês Remotely operated underwater vehicle) é um veículo submersível operado remotamente por uma pessoa a bordo de uma embarcação.

Quando se está embarcado, não tem folga, não tem final de semana. Ela não sofre muito com isso, mas tem muitos colegas que sofrem muito, pois uma vez embarcado, você não pode sair antes do tempo estipulado. Mas se ao ler isso você ficou se sentindo meio clastrofófico(a), feito eu fiquei ao ouvir o relato dela, saiba que nas embarcações existem várias coisas para desopilar. Sala de música, piscina, academia, sala de jogos.

Não que isso ajude no longo prazo, pois depois de 3 semanas de trabalho ininterrupto ninguém aguenta mais.

Por Vanessa ser freelancer, ela trabalha um mês, e folga outro. o que a ajuda a gerenciar seu tempo livre. Se ela quiser, ela pode recusar trabalhos e estender seus períodos explorando cidades diversas. Ela frisa que isso é uma característica de contratos temporários, mas quando você é contratado fixo, você não tem essa boquinha não.

No fim, outro fator decisivo para Vanessa é a localidade da embarcação. Ela acaba priorizando pegar trabalhos em barcos que estão próximos de locais que ela quer visitar. triste para as empresas que custeiam as passagens.

Isso pode parecer extremamente benéfico, mas tem seu lado ruim. As agências de freelancer competem arduamente entre si para conseguir profissionais como Vanessa. Isso faz com que ela tente gerenciar a vida pessoal com muito cuidado, pois se ela aceitar tudo, ela até consegue fazer um bom dinheiro, mas não teria nenhuma qualidade de vida.

Por outro lado, a rotina de trabalho embarcada é deveras claustrofóbica. Existe uma possibilidade de ficar mais dias do que o combinado dentro da embarcação, pois as vezes aparecem pepinos e ela tem que se estender lá para não deixar a tripulação na mão. As vezes o mal tempo não ajuda e o helicóptero que leva trabalhadores do barco para a terra firme simplesmente não consegue pousar.

Quando ela sai do navio, ela se desliga totalmente do trabalho, mas quando ela está embarcada, é muito difícil simplesmente se desligar. É algo que ela ainda está aprendendo a lidar, principalmente quando ela não está no turno dela. Apesar de tudo, ainda é muito pior para quem tem família e tem que se preocupar com as coisas do barco, e também dos familiares que estão em terra.

Pegando a deixa do contexto, esse resumo foi só uma pontinha do iceberg de conteúdo diferente que nós conversamos no episódio #044. Para mim a conversa foi uma aventura e tanto, pois eu naveguei em águas desconhecidas de temas nunca antes explorados por mim. Enfim, eu parei aqui, porque Vanessa aparentemente consegue despertar o tiozão que há em mim, e como diria Maria: “Tu pensa que é bonito ser feio é?”

Curiosidade: o grupo da audiência do podcast nômade no telegram fez um bolão do coronavírus, sobre quem pegaria a doença primeiro, e Vanessa ganhou! Meus parabéns.

Gostou dessa reflexão? Ouça o episódio 044 na íntegra aqui:


- - -

Cupom de desconto no AirBNB
Podcast Nômade
Fonohouse
Apoie