Capítulo 050 - Jornada Nômade
Entrevistada: Fran Oliveira
Episódio lançado em: 27/01/2020
Música de Abertura: - Crer-Sendo - (Castello Branco)

É bonito perceber que o último capítulo deste livro traz o nome do projeto criado pela mineira Fran Oliveira. Vejo beleza em especial na palavra jornada. A minha jornada (como nômade) começou em 2018. Ainda estou longe de me ver tranquilo quanto a isso. Mas é bonito olhar para trás e ver onde me encontro hoje.

Escrever esse livro foi uma jornada. Se você continuou ouvindo o Podcast Nômade, talvez tenha percebido que a ideia inicial era escrever 100 capítulos, inspirado no trabalho dos 100 primeiros episódios. Não deu. O cansaço da pandemia me pegou ao longo de 2020, e eu resolvi encerrar o livro apenas com base no primeiro ano do podcast.

Esses 2 parágrafos anteriores só refletem que a jornada não é simples. O capítulo anterior falou muito das instabilidades emocionais que decidir trilhar uma jornada nos traz. Cursar uma graduação, abrir uma empresa, mudar de país, se dedicar a uma obra, criar um filho são exemplos de jornadas que trilhamos. Indo além, talvez o máximo que a gente decida são as pequenas mudanças no curso.  A jornada é o somatório de cada decisão e só acaba quando morremos.

Oriunda de Conselheiro Lafaiete, Minas Gerais, Fran Oliveira se dedica a ajudar outras pessoas que queiram criar seus negócios digitais. Ela chama esse projeto de “Jornada Nômade Digital”.

Fran sempre se sentiu diferentona. Sempre acho estranho se dar conta de que aparentemente seu futuro já estava desenhado. Muito cedo ela encontrou nos livros uma rota de fuga. Livros de aventura eram os seus favoritos.

Entre os 11 aos 18 ela viajou muito com a família e foi se dando conta que a coisa que ela mais gostava nas viagens não era o destino, mas a estrada em si. A sensação do vento dos carros que passavam rápidos na rodovia, o céu, sempre tão imenso quando estamos nos movendo pelo mundo. A partir dos 18 ela começou a viajar sozinha, indo a cidades diferentes, conseguindo contratos de aluguel e procurando empregos pelas cidades por onde passava.

Após um tempo viajando sem muito foco no destino, mas na viagem em si, ela voltou para sua cidade natal Conselheiro Lafaiete, onde concluiu uma graduação em Direito. Era uma rotina bem comum. Estudava de noite, trabalhava de dia.

Não demorou muito pra ela perceber o quão frustrante era essa vida. Ela se frustrou, pois todo o dinheiro que ela pegava trabalhando para ir pagando as mensalidades da faculdade. Ela se frustrou, porque ela teve a oportunidade de fazer um intercâmbio, e optou gastar esse dinheiro com a faculdade.

Aqui eu posso até estar cruzando a fronteira que separa minha imaginação, da realidade, mas não seria difícil supor que Fran se frustrou inclusive pela decisão de se formar em direito, que em sua essência, é um curso territorialista, ou seja, estudantes de direito geralmente estudam as legislações dos países onde fazem faculdade. A primeira vista não é uma escolha profissional fácil de se adaptar para se ter uma vida nômade.

Em setembro de 2015 Fran se sentia tão frustrada que beirava o desespero. Ela percebia que a faculdade de direito iria lhe levar para um trabalho estagnado. Ela decidiu, Fran largou a faculdade.

Em 2016 ela descobriu esse negócio de “nômade digital”. Ao se recordar de como foi essa descoberta, Fran lembra que não encontrava praticamente nada que atendesse a demanda dela sobre como seria possível ter uma vida nômade. Fran acabou criando um canal no youtube justamente para ajudar outras pessoas. Eu tenho um pouco disso também. Me vi totalmente despreparado na capital da Romênia. Criei o podcast. Depois de muitos meses eu me dei conta de que eu criei o podcast justamente para aprender com a experiência de outras pessoas (somos 2 guerreirinhos Fran!).

Ao passo que nossa conversa foi avançando, falamos de como o mundo está evoluindo rapidamente e como essa coisa de “orientação vocacional” parece estar ficando obsoleta. Por mais que haja sentido em olharmos para nossos talentos, na busca por encontrar uma ocupação profissional que seja adequada para a gente, as próprias ocupações tem evoluído cada vez mais rápido e é importante que a gente tente ampliar cada vez mais a nossa capacidade de adaptação.

Desenvolver constantemente nossa “adaptabilidade” vai nos ajudar muito nos próximos anos. Talvez todo esse glamor que o “nômade digital” com seu macbook air em uma praia da Tailândia, seja apenas uma maquiagem para vender cursos, mas o nomadismo nada mais é do que pessoas que estão se adaptando ao futuro. Parafraseando Lucas Morello, vida nômade é só vida normal.

O futuro pode assustar, muitos empregos deixarão de existir como automatização, bem como muitos empregos que existem hoje, simplesmente não existiam a anos atrás. Profissões evoluem. Eu gosto de pensar que como podcaster, eu sou como antigos locutores radialista.

O futuro pode amedrontar. E isso sempre foi normal. As pessoas temem a mudança, porque ela nos joga para campos desconhecidos, e normalmente tememos o que não conhecemos. A mais de 200 anos atrás maquinistas  ingleses, operadores de trens à vapor  movidos pela queima de carvão, promoveram um verdadeira  quebradeira em trens elétricos, que eram uma novidade na Inglaterra.

Isso te faz lembrar os protestos que houveram entre 2010 e 2020 ao longo de todo o mundo, promovido por taxistas que rejeitavam o advento de aplicativos de mobilidade como o UBER? Pense agora como estamos. Quem venceu a quebradeira, os taxistas ou os aplicativos de mobilidade?

Enquanto você lê esse livro, quem traz o seu delivery de comida é um ser humano, ou você já está recebendo aquele hamburgão via drone? A carne desse seu hambúrguer ainda é de origem animal ou já é uma carne a base de plantas como sojas?

O avanço tecnológico é inevitável. Caminhamos para uma governos de base tecnológicas. As chamadas tecnocracias. O dataísmo (tecno religião baseada na liberdade de dados) já conquistou o mundo e nem percebemos. Você leu esse livro no seu smartphone, ou no seu kindle? Sendo mais objetivo, o mundo já é outro. Quanto mais rápido aceitarmos, mais rápido nos adaptamos.

Além da adaptabilidade, outro ponto importante que devemos ter é “estar aberto a mudança”, mais que isso, é “querer mudar (sempre, se possível)”.  Fran conhece um casal que morou 10 anos na Califórnia e nunca aprendeu inglês, pois o único objetivo do casal era fazer dólares.

Dentro da Jornada Nômade, Fran enaltece o fracasso, pois fracassar é uma excelente oportunidade de aprender. Ela orienta pessoas a se livrar de um “espírito de empregado”, um posicionamento de submissão que fica sempre esperando os outros dizerem o que devemos fazer.

Para Fran, quando focamos na estabilidade não tem jeito. A vida vai nos sacudir de uma forma ou de outra. Na verdade, às vezes não é nem é a vida que nos sacode, somos nós mesmos. Às vezes a gente consegue atingir nossos objetivos e mesmo assim, nossas mentes nos colocam em cheque nos faz questionar se estamos no caminho certo.

Gostou dessa reflexão? Ouça o episódio 050 na íntegra aqui:

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