Capítulo 045 - Profissões para viajar!
Entrevistado: Junior Reis
Episódio lançado em: 23/12/2019
Música de Abertura: - Dia Lindo - (Terno Rei)

A essa altura do campeonato, o trabalho que eu vinha desenvolvendo com o Podcast Nômade me trazia dúvidas. Afinal de contas, eu já tinha suprido  o meu desejo pessoal de compreender melhor o universo do nomadismo? Talvez… Em parte, eu confesso que me sentia saciado. Apesar de tudo, o meu compromisso primordial sempre foi apenas “entregar um episódio por semana”.

Eu preferi que fosse assim. Eu nunca tinha iniciado um projeto de conteúdo com tanta seriedade e refleti que não criar expectativa nenhuma talvez fosse o melhor caminho para simplesmente conseguir continuar. Claro que após algum tempo, as dúvidas começam a surgir… Afinal de contas, qual é meu propósito em construir esse compilado de histórias?

As vezes eu sentia que tinha duas entidades azucrinando meu juízo. Uma que me dizia constantemente para parar… “Passar a responsabilidade para outra pessoa”. Alguém que não se conformaria com o fim do podcast e tomaria para si a responsabilidade de manter esse trabalho. Por outro lado, as vezes vinha uma empolgação de que esse trabalho poderia ser muito maior. Uma vontade de me jogar de vez para muito além do simples compromisso de publicar um episódio semanal.

Esses pensamentos ainda ocorrem. Talvez sempre ocorram, mas hoje, completados 2 anos de trabalho, eu percebo que isso me ajudou no desenvolvimento emocional para ter equilíbrio psicoemocional para manter o ritmo de entrega. Isso é algo que só adquire com o tempo mesmo. Superando pequenas provações. O episódio #045 foi uma dessas provações.

Na verdade, não pelo convidado em si, muito menos por quaisquer dificuldades de produzir um episódio de podcast que você possa estar imaginando, mas porque ao longo a construção desse trabalho eu também fui desenvolvendo meus próprios demônios.

Eu sempre fico vendo casos e mais casos de pessoas que são canceladas na internet e penso que se um dia acontecer comigo, eu não vou me estressar. Podem levantar os dados da minha família inteira. Podem achar nossos endereços, eu não vou ligar. Mas falar é fácil. No fundo eu tenho meus receios. Eu sempre penso se estou contribuindo com as pessoas que se propõem a escutar meus episódios. Sempre vem a dúvida algum episódio é melhor que o outro.

Da mesma forma, sempre existe o medo de que algum episódio esteja muito abaixo da expectativa. Em parte por que eu realmente conduzi um péssimo episódio, em parte porque eu sempre me pego deparando com someliês do nomadismo alheio... Coisas tipo “Ser nômade é isso...”, “Ser nômade é aquilo...”, “um busker não é nômade...” ou “Para ser nômade, você tem viajar assim, assado...”.

Quando eu tenho a oportunidade de conversar com pessoas que ainda não são nômades, ou deliberadamente não querem ser, eu sempre tenho receio de que a audiência vai achar que foi um episódio abaixo da média, afinal de contas, por que diachos Heitor está entrevistando essa pessoa se ela nem é nômade?

Pois bem. Eu sempre tento enxergar relações entre o que o Podcast Nômade se propõem a dialogar, com o que o convidado ou convidada tem a oferecer. Por mais que os participantes em si não se percebam praticantes do nomadismo. Assim foi com o Júnior Reis, que apesar de não ser nômade, é ouvinte assíduo do meu podcast é percebeu que trabalha em uma área passiva de se adaptar ao trabalho remoto, e por consequência, à vida nômade.

São episódios como o do Júnior que mais me provocam reflexões como as descritas acima. E hoje eu tento enxergar esses pontos fora da curva (de quem já está tendo uma vida nômade) como oportunidades de inspirar ouvintes de diversas áreas que é possível sim se adaptar ao nomadismo.

De fato, Júnior ainda não era um nômade propriamente dito, porém durante seu processo de escolha profissional, ele escolheu se formar em uma profissão que lhe permitisse viajar. No caso tradutor e intérprete.

Baiano de Feira de Santana, mas residindo no estado de São Paulo,  Júnior Reis é formado em tradução e especialista em tradução técnica. Uma formação que o direcionou a trabalhar fazendo contratos, procurações, e traduções audiovisuais, com foco em legendas de filmes e séries.

Algo interessante trazido por Júnior é justamente o fato de que ele não é uma pessoa que estudou direito, não seguiu com essa profissão e acabou se adaptando ao campo das traduções. Junior de fato estudou e se especializou nessa área. Apesar de não ser uma profissão regulamentada, existem técnicas, boas práticas, softwares específicos que otimizam esse trabalho.

Além disso existem agências de tradução, que sempre dão preferência a pessoas que tenham alguma mínima certificação em tradução. Contratar um tradutor por intermédio de uma agência é uma garantia de que o conteúdo traduzido vai ter qualidade. Ou pelo menos esse é um argumento de vendas...

Em geral, o modelo de negócio destas agências, o cliente paga, uma parte vai pro tradutor, outra vai para o revisor, em alguns casos existe também uma comissão para vendedores, e claro, a taxa de lucro da agência.

Outro ponto que me foi uma novidade é que o mercado brasileiro cobra por lauda, enquanto no mercado internacional, cobra-se por palavra traduzida. Outra novidade curiosa é que como diversas áreas profissionais, o campo da tradução tem seus próprios jargões técnicos. Existe diferenças conceituais entre termos como “tradução” e “versão”.

Tradução é sempre de um idioma estrangeiro para o português e versão é sempre do português para um idioma estrangeiro. Existe também a chamada versão dupla, que é de um idioma estrangeiro para outro idioma estrangeiro.

Dentro do campo da tradução, existe quem se especializa em dublagem, que é uma tradução auditiva de um conteúdo em língua estrangeira. Para ser dublador, é importante que se tenha o DRT de ator, salvo quando a produção exigem a voz de uma personalidade específica como o caso da Pitty (mortal kombat x), Luciano Hulk (enrolados) e Mari Moon (Detona Ralph).

Também existe diferenças entre que faz traduções e que é intérprete. Intérprete é aquele profissional que fica em eventos dentro de um cabines transpondo o que palestrantes estão comunicando.

E para quem pensa que o campo de trabalho da tradução se refere apenas a idiomas, ignora outras possibilidade de trabalho, como a áudio-descrição, que é voltada para deficientes visuais. Pois além do áudio original da mídia assistida, ainda tem uma descrição de cores, cenários, figurinos, para que os deficientes visuais tenham uma maior imersão na história.

Existem ainda pessoas cegas que são consultoras dessas adaptações, pois pessoas com a visão sem deficiência muitas vezes podem carecer de empatia para sentir com profundidade as necessidades de pessoas que tem problemas de visão.

E para quem é deficiente auditivo, ainda existe o famoso Close Caption e as libras (linguagem de sinais brasileiras), onde narram de forma transcrita, ou gestual o que está sendo transmitido de forma auditiva na mídia assistida.-O Junior não fazia a dublagem em si, porém várias vezes ele fazia a tradução para a dublagem, ou seja, ele recebia o filme em língua estrangeira, traduzia e passava o roteiro traduzido para atores dubladores adaptarem.

De fato é um trabalho bem árduo, por Junior relata que um episódio de uma série de 20 min pode demorar até 2 dias pra traduzir em média, enquanto que um filme poderia durar até uma semana. Isso tudo para depois ele ainda passar para o dublador.

Ao longo do episódio mergulhamos na jornarda para se profissionalizar nesta área e de fato, apesar de ser um episódio que ativa meus demônios internos como produtor de conteúdo, confesso que me senti grato ao final por ter me permitido expandir ainda mais meu conhecimento em relação à outras formas de trabalho.

Conversamos sobre a rotina de trabalho, a viabilidade de adaptar essa área para o trabalho remoto, e por consequência como podemos ter uma rotina de trabalho enquanto levamos uma vida mais itinerante. De fato, é um daqueles episódios que nos tiram do lugar comum e nos fazem mergulhar nas profundezas de outros lugares comuns, e ampliar nossas mentes para novas possibilidades.

Gostou dessa reflexão? Ouça o episódio 045 na íntegra aqui:

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