Podcast Nômade 002: Mochila e violão, por Will
Entrevistado: William do Canal Mochila e Violão
Episódio lançado em: 07/02/2019

Chegamos em Março. Precisamente no dia três de março de dois mil e vinte. Por hora penso em ir registrando esse livro datando os dias em que paro para escrever a reflexão de cada episódio. Por essa razão, vão se acostumando com datas escritas por extenso. Reservarei expor datas numéricas apenas para questões que sejam pontualmente relevantes.

Faziam apenas 4 meses que eu tinha saído do Brasil quando iniciei o trabalho com o Podcast Nômade e tive a enorme honra de entrevistar Will, passageiro que ao longo dos meses foi se tornando uma pessoa muito querida para mim. Diferente do atual estigma dos “nômades digitais com seus MacBook Airs, bebericando aguinha de côco em alguma praia da Tailândia”, Will era um cara diferente, ele era um nômade analógico.

Natural de São José dos Campos, Will tinha como atividade profissional mais relevante o ofício de professor de línguas. Pelo que eu percebi, ele não chegou a concluir nenhuma faculdade, mas isso foi antes… Antes dele “virar a chave” e perceber pelos seus próprios sentidos que a vida que ele estava levando não fazia muito sentido.

Em algum momento da sua história, ele soube através de um amigo um tal de “trabalho voluntário”, e proativo que só ele, vendeu logo um carrinho e partiu para a Alemanha, onde iniciou um estilo de vida nômade fazendo trabalho voluntário. (Parece até o anfitrião desse podcast).

Como era de se esperar, Will não se adaptou quando voltou ao Brasil. A viagem realmente muda a gente de uma forma que só quem viaja entende bem. De maneira bem rasa, o que acontece é muito simples: “Depois de ver, não dá para "desver", e no caso de Will, era talvez até mais amplo do que isso, nas palavras dele, a volta não fazia sentido, pois ele não tinha sequer a que voltar.

Eu me identifiquei por demais com essa sensação. E ouvindo Will falar, eu acabei me lembrando do meu velho Ford KA 2 portas 2008. Aquele não foi apenas um carro, foi uma escola de mecânica completa. Eu troquei pneus, bateria, cabo do acelerador, refiz o motor. Foram tantos problemas que eu tive com aquele carro, que me sentia bastante aliviado. Não foi apenas o repasse de um carro, foi um livramento!

Acho que Will deve ter passado por algo assim, e confesso que eu fiquei bastante admirado de ver que o cara simplesmente optou por ter uma vida mais simples indo quase do 8 ao 80. Foi de fato o meu primeiro contato com um nômade analógico, um busker profissional. Will era um cara que viajava de carona, tocava músicas em, sua grande maioria, brasileiras em locais públicos, como praças e feiras para arrecadar alguns euros e registrava as aventuras e desventuras no seu canal de youtube “Mochila e Violão”.

O trabalho com o Youtube também foi outro ponto que eu gostei bastante. Will faz um trabalho bastante reflexivo em seus vídeos e eu vi de cara muito valor no trabalho dele. Não era apenas mais um viajante trazendo os prazeres de explorar o mundo. Will se ferrava muito e sempre mostrou isso publicamente.

De certa forma, seu estilo de viagem costuma atrair muita gente, pois a maioria das pessoas não tem muita condição de viajar como gostariam e ver um cara fazendo isso do jeito que dá é realmente muito inspirador. Parte da audiência de Will acaba sendo jovens, que por estarem no início de suas vidas profissionais, carregam muito o desejo de viajar, mais ainda não se estruturaram o suficiente para iniciar uma vida nômade. Particularmente eu acho louvável a postura honesta de Will, pois mostra que ele é uma pessoa que tem um senso de responsabilidade sobre suas palavras.

De certa forma, era muito legal conversar com alguém sobre música, pois eu saí do Brasil muito magoado em relação a isso. As pessoas da Europa eram mais receptivas à música e conhecer uma pessoa que conseguia tirar o sustento de uma das formas mais simplificadas de música que existe era muito agradável. Will relatou alguns ganhos financeiros que ele conseguia apurar como Busker, tocando na rua. No dia anterior à gravação do episódio 002, Will tocou por 4h em Zagrebe e apurou 300 cunas (cerca de 35 euros). Naquele momento eu achei aquilo muito dinheiro. Hoje meu pensamento seria bem diferente, mas foi interessante ver como minha percepção disso mudou em pouco mais de um ano.

Quanto mais os meses foram se passando, eu fui me engajando cada vez mais na construção do podcast e também da minha empresa de terapia online, e lembrei dos meus próprios momentos como busker na ponte da amizade, em Aveiro, Portugal. Ouvir o episódio 002 me lembrou inclusive de algumas pessoas que passaram por mim enquanto eu me apresentava pelas ruas de Portugal. No último dia que toquei em Portugal, lembrei que conheci um casal (um paulista e uma Romena, que falava muito bem o português). Apenas passageiros, passaram pela ponte da amizade, passaram por uns poucos minutos da minha vida.

Um ponto que eu gostei bastante de abordar foi justamente nosso desencanto mútuo pelo ensino acadêmico. Will por um lado expôs seu descontentamento em relação à professores que pareciam não querer exercer a profissão. Eu por outro lado, me lembrando dos dias em que a última coisa que eu queria era dar aulas para alunos que só queriam beber cachaça nos estacionamentos das faculdades, por onde eu era professor.

Para além disso, divagamos um pouco pelo que eu chamo de “falácia da prosperidade acadêmica”, do qual somos constantemente bombardeados por uma promessa de um futuro mais agradável. Esse certamente é um ponto que vi ser bastante pincelado ao longo deste livro, por isso não vou me estender por agora.

Agora, entrando definitivamente no ponto que mais me deslumbrou ao conhecer um pouco melhor Will foi sua incrível capacidade de falar diversos idiomas. Apesar dele deixar bem claro que “fluência” era algo relativo, ele tinha um alto domínio de inglês, português, espanhol, francês, italiano, alemão, além do fato que Will também estuda croata, mandarim, russo, japonês e farsi (uma língua persa falada no Irã). O menino era um pequeno monstro.

Will era um linguista nato, e um conteúdo muito rico transmitido nesse episódio foram justamente os muitos hacks para evoluir no aprendizado de diversas línguas, ou nas palavras do próprio Will, parar de ser enganado por escolas de idiomas que te seguram por anos, para que você pague muitas mensalidades, enquanto se tem um processo vagaroso do aprendizado de idiomas.

O ponto crítico é “aprender a aprender”, e cada pessoa pode dominar seus próprios processos de aprendizado. Will por exemplo, comenta que existem 2 tipos de vocabulários, o vocabulário ativo (escrita e fala) e o vocabulário passivo (escuta e leitura). Para ele, o primeiro passo para se ativar em uma língua e enriquecer profundamente o vocabulário passivo, pois é mais importante a gente saber o que estão tentando nos informar, do que se sabemos nos expressar muito bem. Inclusive isso faz bastante sentido quando estamos nômades.

Outra dica foi que Will começou a aprender alemão utilizando como  língua base o inglês, justamente para “não pensar em português” enquanto ele se comunicava em alemão. Ele também assistia filmes com áudio em croata, e com legenda em italiano. Enfim, como eu disse anteriormente, um pequeno monstrinho!

Will comentou que faz alguma coisa todos os dias utilizando cada uma das línguas que sabe ele sabe, e que no final, um ótimo hack é justamente “viver as línguas”, ou seja, criar conexões nas línguas que ele está se aprendendo. Fazer amigos, se apaixonar, viver perrengues. Isso vai criando sinapses que vão reforçando a memorização de cada idioma. Língua nada mais é, do que uma mistura de linguagem corporal, musicalidade e conexão com nativos.

Para mim, ouvir aquilo foi maravilhoso, pois eu particularmente tenho pequenos traumas com o aprendizado do inglês, e no fim, nas palavras de Will, para que viajamos, se não for para se conectar com outras pessoas. Para ele, monumentos turísticos são passageiros e desinteressantes. A vida nômade não deve ser silenciosa e parafraseando o Christopher McCandless (o carinha do filme Into the Wild) “Happiness is only real when shared” (a felicidade só é real quando é compartilhada).

Ainda teve um ponto aqui, outro alí que eu perguntei quais aplicativos  Will utilizava em suas viagens. A verdade é que por um lado, eu era tão noob, que estava discretamente querendo aprender com alguém que já estava vivendo, por outro lado, percebo que com o tempo fui parando de perguntar sobre esse tipo de coisa, e talvez seja uma boa desenvolver algum material no futuro, pois além de ser algo do meu interesse, é um conteúdo bastante útil para quem está na estrada.

Por fim, eu achei engraçadas e cabulosas algumas histórias sobre perrengues utilizando aplicações como o CouchSurfing. Will pincelou alguns perrengues para “homens que viajam só”, e que no fim, o sentimento era de que parecia que nossas vidas eram como um jogo de videogame com fases bem definidas (ENEM, Vestibular, trabalho, casamento, filhos), mas que ao deixarmos esse roteiro de lado e iniciamos nossas vidas nômades, nós começamos um jogo de mundo aberto. Agora nós poderíamos ir para qualquer lugar, exceto se não tivéssemos a Carteira Internacional de Vacinação, contra Febre Amarela, mas esse é um perrengue particular que eu vou falar mais pra frente.

Eu ainda vou falar mais de Will nos próximos capítulos (cenas de novos episódios), ele acabou escrevendo um livro, estourou o joelho de tanto andar a pé e criou um canal todo em inglês. Esse aí me empolga!

Confira o canal de Will, Mochila e violão! É super bacana e vale muito à pena!

Gostou dessa reflexão? Ouça o episódio 002 na íntegra aqui:


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