Capítulo 047 - Pretas pelo Mundo
Entrevistada: Sophia Costa
Episódio lançado em: 06/01/2020
Música de Abertura: Bonecas Pretas - (Larissa Luz)

Sophia Costa definitivamente é uma figura “alto astral”!. Natural de Anápolis (GO), Sophia cresceu em Brasília, e se formou em comunicação social pela UNB. Apesar de passar a infância e adolescência na capital tupiniquim, Sophia sente que não combina com Brasília. O meu palpite é que as bases formadoras do caráter da moça compactuam com o centro administrativo de um país tão problemático no que diz respeito a diversas pautas sociais.

Brasília foi projetada para as elites governantes. Distante de outros centros urbanos, o que dificultava o acesso por terra, Brasília foi pensada para o uso de carros. O que se for pensar com um olhar histórico, faz todo o sentido, pois Brasília surgiu na era Kubitschek, no apogeu da indústria petrolífera brasileira. Brasília não foi pensada para um futuro que corre na busca por alternativas à combustíveis fósseis.

Hoje vemos com mais clareza como a política, enquanto representante lobista de um estado miliciano é disfuncional para a população. Não sei se sou eu ficando mais velho, mas quanto mais o tempo passa, mais a política faz parte do meu ciclo mais próximo de amigos e familiares.

Acredito que deve ter sido difícil crescer diretamente com essa classe. Uma classe de representantes dos anseios populacionais. Estudar com familiares de representantes ruralistas (degeneração ambiental), representantes religiosos “eleitos” (intolerantes teocráticos de extrema direita), e políticos de base militares (muitas vezes a favor da manutenção da narrativa da guerra contra a violência e narcotráfico, provocados pelos próprios milicianos que comandam oferta e demanda - de violência).

Brasília é a capital dos concursos públicos, sonho de muitos brasileiros… Não o concurso, mas a estabilidade que é prometida junto à posse do cargo público. Sempre que eu posso, eu expresso minha aversão ao fator “estabilidade” da lei 8.112, pois a tendência natural da estabilidade é a estagnação. Água parada apodrece!

A educação estruturada no nosso país é voltada para estabilidade. Psicopedagogos que tentam despertar na juventude suas vocações profissionais, muitas vezes não perceber que orientam jovens para caminhos que logo serão extintos diante de um mundo com tantas mudanças.

Isso não foi escancarado no episódio #047, mas eu carrego a intuição de que sair de Brasília era uma necessidade para Sophia, que apesar de crescer em um ambiente aparentemente hostil, Sophia conseguiu manter seu astral contagiantemente positivo.

Não entrando na tentativa de conceituar o que é ser nômade, algo comum percebido nesse estilo de vida é que nômades se forçam a lidar com mudanças. Para alguns isso é mais difícil de lidar, mas de uma maneira geral, nômades se forçam para ampliar sua capacidade de adaptação.

A escolha profissional de Sophia aparentemente não contemplou abertamente a possibilidade do nomadismo. Comunicação social tem 3 habilitações: Publicidade, jornalismo/relações públicas ou cinema. Sophia escolheu publicidade, porém com o avanço do curso superior, ela foi percebendo que publicidade era um ramo muito capitalista. Aos poucos ela foi dando um novo direcionamento para a vida dela e acabou estudando um pouco de diversas áreas, como história, antropologia, música.

Ainda na UNB ela passou por um processo de transição capilar para parar de alisar seus cabelos. Essa fase foi importante, pois foi quando ela compreendeu melhor o racismo estrutural impregnado no Brasil e acabou fazendo um trabalho de conclusão de curso, onde ela expôs de forma fotográfica a importância do cabelo no processo de construção de identidade da mulher negra. Sophia viajou o mundo com sua monografia.

Na altura que produzimos o episódio, eu não tinha noção nenhuma do que esse último parágrafo sobre transição capilar poderia dizer. Talvez você que também acabou de ler, passou batido… “Transicão capiar”... Ok!... Palavras.

Cara! Isso é muito forte! Meses após esse episódio eu produzi um podcast de clientes minhas de Belo Horizonte (Tempo de Ócio), onde eu editei uma conversa com diversas pessoas que passaram por esse processo e me dei conta do quão angustiantes é você alisar seus cabelos “para se sentir mais branca”.

A angústia que gente que alisa cabelo sofre quando vê o céu se preparando para chover. De ser chamado de “carne moída” ou coisas do tipo na infância. De usar sempre um chapéu, ou levar consigo uma chapinha de bolso… Na moral, hoje eu tenho a maturidade de entender porque o trabalho de conclusão de curso da Sophia ganhou tanto destaque. Ela fotografou diversas mulheres que passaram por esse mesmo processo de transição dela. E isto teve uma repercussão gigante, ela expôs no Rio de Janeiro, Brasília, Maceió... até que um instituto de Berlim convidou ela a expor.

Primeiro que foi uma surpresa para ela e sua família. Sem dinheiro para uma viagem desse porte, sem tempo para se preparar, sem passaporte Sophia em apenas 15 dias recebeu o incentivo de centenas de pessoas, que a apoiaram ela financeiramente, fazendo com que ela tivesse sua primeira viagem para a Europa. Nas palavras dela, as coisas não foram planejadas, simplesmente foram acontecendo….

A música de abertura desse episódio foi escolhida a dedo. Bonecas Pretas da cantora baiana Larissa Luz, fala justamente da ausência que crianças negras tem de referências de exemplos de pessoas pretas (brinquedos, filmes…) em sua infância. Muita gente preta acaba se forçando, se mutilando, se queimando, se machucando para se encaixar em um padrão eurocêntrico de branquitude. Isso é triste.

Em Berlim, Sophia acabou conhecendo negras do mundo inteiro e foi quando ela se deu conta que essa opressão é no mundo inteiro. Isso tudo ampliou a mente dela para fazer um mestrado sobre o assunto. Sophia começou a perceber que no ensino básico ela não teve professores pretos, e na graduação ela só teve 3 professores pretos.

Em 2018 ela teve uma oportunidade de fazer um trabalho voluntário por uns 4 meses em Moçambique. Ela relata que quando chegou na África do Sul e Moçambique, ela chorava de alegria, por ver a população negra em todo lugar, trabalhos, outdoors.

No segundo dia que ela voltou do Brasil, ela descobriu que tinha passado no mestrado em direitos humanos em Buenos Aires e tinha que estar lá em 15 dias. Era um mestrado aberto de toda a América Latina, e conheceu pessoas de diversos países.

Após terminar o mestrado, ela resolveu ir de vez para a ásia. Sua mãe não compreendia esse desejo que Sophia tinha para viajar. Talvez eu tenha dado motivos de sobra nos parágrafos anteriores para ajudar compreender. O contexto estava mais que claro. Com o tempo ela começou a compartilhar as experiências dela viajando e com o tempo as pessoas começaram a pedir dicas de como viajar. Sophia viu essa demanda crescer e está virando uma espécie de “personal traveler”, ajudando outras pessoas a se organizarem e planejarem suas viagens).

Sophia é uma força inspiracional e eu fico muito feliz pela oportunidade de me deixar compartilhar um pouco da sua história Sophia.

Gostou dessa reflexão? Ouça o episódio 047 na íntegra aqui:


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