Capítulo 048 - De volta a vida real
Entrevistada: Felipe e Juliana
Episódio lançado em: 13/01/2020
Música de Abertura: Happy Pills - (Norah Jones)

Juliana e Felipe são o tipo de pessoas que me fazem pensar.

Talvez eu já tenha deixado escapar pelos conteúdos que eu faço o quanto eu reflito o avanço tecnológico e qual é o impacto disso na vida humana. Recentemente eu finalizei o livro Homo Deus, do historiador israelense Yuval Noah Harari. Dentre vários insights brilhantes que o livro me proporcionou, uma frase definitivamente ficou marcada para mim: Não é que vão faltar empregos no futuro, é que simplesmente o ser humano não será mais empregável.

Para contextualizar, esse livro aborda justamente como o homo sapiens caminha a passos acelerados para sua extinção. Mas antes que você pense que isso é o fim de tudo, na realidade caminhamos para o fim da espécie sapiens, e para o advento de um novo tipo humano, com capacidades muito além das atuais, um literal homo deus. Nesse cenário hipotético, o homo sapiens será tão obsoleto que simplesmente não será viável empregá-lo.

Isso acontece o tempo todo. Escribas perderam espaço para tabeliães, que perderam espaço para juristas. Avanços tecnológicos tornam profissões obsoletas. A caneta substituiu a pena. A máquina de datilografar substituiu a caneta. O computador substituiu a máquina de datilografar. Junto com as profissões, profissionais se perderam na obsolescência do tempo.

A diferença é que essas rupturas antes eram perceptíveis no espaço de uma vida inteira, às vezes, as mudanças demoravam gerações para ocorrer, enquanto que atualmente, vemos essas mudanças em intervalos cada vez menores. Cada vez menos vamos a restaurantes. A comida vem até a gente. Ter um carro  perde o sentido em um mundo com aplicativos de mobilidade. Motoristas de aplicativos e entregadores de comida logo serão substituídos por drones. Você ainda acredita em aposentadoria, por tempo de serviço, regulamentada pelo estado? Eu não.

Por mais assustador que possa soar, eu gosto de pensar nessas questões. Eu gosto de olhar hoje para meus pais e imaginar como eles se adaptarão aos próximos 5, 10 anos… Eu gosto de pensar que tudo que eu faço atualmente é focado não em me estabilizar a nada, mas sim, estar preparado para me adaptar ao futuro.

Mas como o Harari bem disserta, em algum ponto, eu também ficarei obsoleto, ou conseguirei transcender ao status de homo deus. Um cara como Jeff Bezos certamente conseguirá, se conseguir se manter vivo até a tecnologia permitir essa possibilidade. Steve Jobs não conseguiu.

Eu gosto de falar sobre nomadismo, porque eu gosto de pensar que a arte e o nomadismo serão os últimos redutos do homo sapiens. Quando automatizamos o máximo de atividades possíveis, nos sobrará uma vida estagnada, conectada na maior parte do tempo, à realidades virtuais, ou aproveitamos para viajar, e nos dedicar a atividades artísticas.

Recusar essa possibilidade de futuro é querer vencer a gravidade, tentando alçar vôo batendo os seus braços. Eu já tomei esse futuro como inevitável, e prefiro transformar essa aceitação na minha esperança final. Acreditar que um cara simples como eu viverei para ver esse novo mundo. E ainda mais do lado dos que transcenderam.

No fundo, eu ajo na expectativa de poder não me ver estagnado e obsoleto o máximo de tempo que eu possa conseguir. Sou consciente de que a decadência é a ordem natural, mas ainda sim, eu me apego na expectativa de que eu pelo menos viva o suficiente para ver por meus próprios olhos esse futuro.

Mas é bom falar que essa coisa de homo deus será reservada para uma minoria bem abastada. A maioria da população se verá desocupada, obsoleta, e no meio de uma massa de pessoas, eu gosto de pensar que humanos ainda se dedicarão a cuidar dos seus semelhantes. Nesse aspecto, eu valorizo e acho muito lindo profissões como cuidadores de idosos, enfermeiras, psicólogos, dentre outras pessoas que usam suas vidas para auxiliar terceiros.

Agora eu volto para Juliana e Felipe, e por que eles me fazem pensar?

Porque eles buscam a simplicidade.

Porque eles pausaram suas carreiras de engenharia civil e engenheiro naval para fazer house sitting e couchsurfing. Não por economia financeira, mas realmente porque eles queriam fazer laços verdadeiros com outras pessoas.

Sobre house sitting, essa é a primeira vez que eu uso esse termo. House sitting é a prática de cuidar da casa dos outros. Cuidar dos sítios, das casas de praia, dos cachorros. Talvez você esteja mais familiarizado com as famosas baby sittings, dos filmes americanos.

Formado em engenharia naval pela UFRJ, uma atividade que lida com máquinas marítimas, petróleo e gás, offshore, Felipe trabalhou no offshore por um tempo até que desde 2005 ele se viu com a condição de mochilar pelo mundo. Em um esquema mais ou menos parecido com o da Vanessa Lima, do episódio #044.

Juliana, por sua vez, trabalhou com manutenção em um shoppings por 5 anos.

Com o amadurecimento do relacionamento, Felipe usou sua experiência como mochileiro e acabou influenciando Juliana em assumir um estilo de vida nômade. Felipe, uma pessoa ausente da maioria das redes sociais, queria que suas experiências de viagem fossem o  mais sinceras possíveis. Que de fato houvesse trocas verdadeiras.

A prática do Couchsurfing seria uma boa maneira de conhecer outras pessoas pelo mundo, então por um bom tempo, eles receberam muitas pessoas na própria casa, para ir aprendendo boas práticas como anfitrião, e futuramente como convidados de terceiros.

No primeiro ano de viagem deles, eles passaram um bom tempo com um canadense que tinha como hobby receber pessoas no couchsurfing. Eles aprenderam que para tentar obter experiências satisfatórias, é recomendado usar plataformas como couchsurfing ou workaway (de trabalho voluntário) focando principalmente a troca humana. Quem foca na economia de dinheiro muitas vezes não está totalmente aberto para novas conexões.

Em um mundo com tanta automatização e conexões digitais, o progresso leva a gente a se afastar, e plataformas que proporcionam trocas genuínas como o couchsurfing acabam sendo muito valiosas. Uma coisa positiva que eles disseram é que as melhores experiências deles é quando eles estão totalmente livres de expectativas, e com o coração aberto

A questão da vida simples ter dado certo para eles, é que foi uma decisão consciente. Eles tinham condição de viver com mais conforto em airbnbs, porém, ao refletir que muitas pessoas que botam suas casas em airbnbs por estarem focando nos ganhos financeiros, eles optaram por diminuir o máximo possível o uso de airbnb.

No couchsurfing eles eram muito mais bem tratados, e eu inclusive relatei que no período que fiquei pela primeira vez em Bucareste, fui muito melhor tratado pela minha anfitriã do couchsurfing do que pela minha anfitriã do airbnb.

Já o house sitting é uma mistura de workaway+couchsurfing. A Juliana e o Felipe estão se especializando em cuidar dos animais de outras pessoas em troca de hospedagens. Você vai criando sua reputação nessas plataformas, e isso acaba se tornando um bem intangível. Com essa reputação, eles estão recebendo convites para viajar para diversos lugares.

Honestamente, eu acho um estilo de viagem bonito.

Na decisão consciente de simplificar a vida, talvez Felipe e Juliana estejam muitos passos à frente no processo de se adaptar ao futuro.

Gostou dessa reflexão? Ouça o episódio 048 na íntegra aqui:

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