Podcast Nômade 033: Dora Lua
Episódio lançado em: 30/09/2019
Música de Abertura: - Falling (John Frusciante)

Um pensamento profundo para começar o capítulo: Na maioria das vezes, é justamente de onde a gente menos espera, que não acontece porra nenhuma!  Felizmente esse não é o caso da minha conversa com da Dora. Melhor ainda, ouvir esse episódio vai lhe expor ao melhor sotaque por metro quadrado desse Brasilsão! Dois pernambucanos conversando sem coleira!

Todo mundo é particular, mas tem algumas pessoas que são mais particulares do que outras. Dora é uma dessas pessoas raras. Para não deixar a colocação anterior muito aberta para interpretações dúbias, eu quis dizer que enquanto muitas pessoas tendem a seguir planos que muitas outras pessoas já trilharam, Dora é peculiar na sua relação com o nomadismo.

Muitas pessoas querem carros, casas, concursos públicos. Algumas pessoas respondem o chamado da estrada e decidem explorar o mundo. Mesmo dentro da nomadesfera, a gente percebe algumas regrinhas feito as que Rafael Santos enumerou no capítulo 031. Não é que Dora não siga planos, apenas que seu plano é diferente da maioria. Ela tem o plano de conhecer todos os continentes do mundo em 20 anos. Lento mesmo, pois ela não tem pressa.

Dora é uma figura natural de Recife, que já cruzou milhares de quilômetros pelo Brasil de bicicleta. Durante as estradas do Brasil, Dora acumula dezenas de histórias, que certamente são fermentadas em sua mente durante as pedaladas infindas. Esse episódio não se trata apenas de uma grande história de um grande momento da Dora, mas sim, uma coletâneas de histórias da Dora.

Para começar, Dora é direta e fala com a moral que apenas uma pessoa que viveu tais experiências pode relatar. Ela começa falando que as pessoas acham que o maior problema que os nômades passam é fome ou algo assim, mas não é, o maior problema que nômades enfrentam é emocional.

E Dora chegou a essa conclusão após perceber uma coisa sutil, porém primordial: felicidade é uma coisa que se pratica. Sua prática consistia em mentalizações positivas, exercício da gratidão, exercícios físicos e qualquer coisa que ela acredite que poderia melhorar eseu estado de felicidade. Dora acabou se tornando uma pessoa atenta a sua própria felicidade. Isso que eu chamo de inteligência emocional!

A respeito da sua relação com a estrada, Dora precisou fazer um exercício mental para lembrar quando foi a primeira vez que ela viajou e sentiu-se entregue ao desconhecido. Uma coisa que ela observou, foi que diferente das histórias de viajantes que costumam ter um um momento de ruptura, por ela já ter viajado muito desde muito pequena, ela não precisou tomar esse gole de coragem que muito viajante toma e marca sua primeira experiência.

A sua primeira experiência marcante de viagem foi a muitos anos, quando ela e sua mãe caíram  em um “golpe da raspadinha”, uma estratégia de marketing que muitas  agências de turismo costumam usar. Eu mesmo já caí uma vez. Dora e sua mãe “ganharam” diárias grátis em um hotel em Natal, mas para resgatar o “prêmio” elas teriam que pagar diversas taxas.

Na moral, o sentimento aqui foi decepção. Nas palavras de Dora: “prometer algo pra rico é de boa, mas prometer algo pra pobre é gerar uma expectativa perigosa!”. Ela e sua mãe se frustraram por perceberem que no fundo, se tratava apenas uma ação de marketing. O que Dora não esperava era que aquela situação iria despertar uma atitude na sua mãe. Esta tinha decidido que iriam para Natal de qualquer jeito. E meio que foi exatamente dessa forma que elas foram, “de qualquer jeito”.

Tudo aquilo que a gente não encara, torna-se uma limitação, e mesmo sem muita condição ou preparo, ela e sua mãe partiram de Recife para Natal, vivenciar uma história que impressionante “que o William Bonner não contou no Jornal Nacional”.

Resgatando memórias da primeira fase da minha adolescência, eu lembro de um dia que me deparei com minha mãe chorando ao assistir o Jornal Nacional. Meus olhos de pronto focaram a tela da televisão de tubo, tentando compreender a emotividade repentina da minha mãe. A história contada era de 2 pescadores que saíram para travar a luta diária para tirar seu sustento, e em alto mar, sua embarcação naufragou e os dois homens voltaram a nado para o Rio Grande do Norte.

O que os jornais não notificaram foi o processo para retornar a terra em si. Talvez porque os pescadores foram imediatamente hospitalizados devido ao esforço físico. Os dias passaram, a história tinha virado pauta fria e jornais estão sempre atrás de novidades quentinhas para atrair mais audiência. Uma coisa que essa brincadeira de entrevistar pessoas está me ensinando é que por trás de uma grande história, existe sempre um contexto tão interessante ou até melhor.

A história da sobrevivência desses dois pescadores tinha ocorrido poucos dias antes da viagem de Dora e sua mãe para Natal. Elas caminhavam pela orla de Natal, quando avistaram um morro e resolveram subir lá. O morro em questão era o famoso morro do careca. Próximo do morro, um desses botecos rústicos muito comuns em praias do nordeste brasileiro. Chegando nesse bar, elas conheceram outros pescadores amigos dos 2 pescadores sobreviventes que contaram a história em detalhes.

O que os jornais não falaram foi que os pescadores aproveitaram uma corda que não tinha afundado e se amarraram um no outro. A ideia era a seguinte, ou eles voltavam juntos, ou eles afundariam juntos. Após horas nadando, de repente um dos pescadores sentiu a corda leve e percebeu que seu companheiro tinha soltado a corda e desistido de nadar.

Imediatamente o pescador que se encontrava a frente retornou e decidiu morrer junto com o outro que já havia jogado a toalha. O primeiro pescador a desistir aceitou a própria morte, mas ao ver que sua atitude fez com que o amigo cumprisse com o pacto de que os 2 morreriam foi algo inaceitável. Assim, eles tiraram forças sabe-se la de onde e conseguiram retornar à costa. Talvez muito mais pela vontade de salvar o outro, do que salvar a sí próprio. Dora tinha seus 10 anos quando ouviu essa história.

Para Dora, as melhores coisas da vida são eventos que ampliam o nosso horizonte. Dora aprendeu nesse dia que a gente simplesmente não sabe as circunstâncias que trazem as melhores coisas que a vida nos reserva.

Seguindo o episódio, Dora também reflete que todos nós “viajeiros” temos problemas emocionais, mas quem vê de fora nos enxergam como “heróis”. Muitas vezes, alguns desses viajeiro acabam encarnando e expondo esse lado heróico na internet e omitindo o lado ruim, mas que de qualquer forma, viajar sempre é enriquecedor. Não importa viajar lento ou rápido, porque de uma forma ou de outra viajar nos força a nos colocar em movimento e se colocar em movimento é o primeiro passo para encontrarmos um propósito.

A ideia de fronteira territoriais é um desses exemplos de coisas que Dora ampliou em suas viagens. Fronteira territoriais simplesmente não fazem sentido. Fronteira para ela é desenhada pela mudança da vegetação. Fronteiras cartográficas são artificiais, moldam a gente apenas pelo seu simbolismo. Fronteira é fruto de litígio. Fronteira gera um bairrismo, um patriotismo gerador de conflitos, mas que no fim se trata apenas de uma crença humana. Dora evita usar a bandeira do Brasil.

De fato é engraçado ouvir as palavras da Dora, após ler a trilogia de livros do Laurentino Gomes (1808, 1822, 1889) sobre a história do Brasil. Escrever esse capítulo enquanto o Brasil se torna o país mais perigoso do mundo com relação à Covid19. Perceber que o alastramento aqui se dá justamente por pessoas que ignoram as consequências que seguirão nos próximos dias, embebidas de um patriotismo cego nas frases “minha bandeira é amarela”, “300 do Brasil AUUU!” ou qualquer outro pensamento idiota do tipo. Ver os líderes da América Latina dizendo que o Brasil é um risco para o continente.

Eu cresci ouvindo que brasileiro eram sempre bem quistos no exterior, um povo amigo ou coisas do tipo. Ao sair do Brasil eu me dei conta de como nosso passaporte era valioso e de quantos países nós poderíamos acessar, mas nesses tempos de obscurantismo, o que ouço é sobre como viramos piada internacional, ou pior, que o povo brasileiro tem uma forte tendência fascista. Tudo em nome de um patriotismo criado pelo simbolismo fronteiriço da ideia da nação brasileira.

É nessa época da minha vida que floresceu em mim o sentimento de que para alguns o nomadismo não é apenas aquele chamado para explorar o mundo, mas sim uma fuga de uma guerra interna contra a ignorância. Uma ignorância generalizada que nasce nas pequenas coisas como ignorar que “fronteiras são apenas um conceito imaginário” (que antes de tudo, serve para dividir, e não para unir).

Mas voltando para Dora, falamos também de um texto muito interessante dela chamado “A arte de Manguear”. Manguear é um termo da “cultura da malucada” ou “malucos de BR”, aqueles artesãos comumente conhecidos como hippies, que vendem “miçanga” pelas calçadas do mundo. Na realidade eles se chamam de hippies apenas para se provocar ou brincar uns com os outros, mas eles se identificam mesmo malucos.

Na essência, manguear é a arte de entrar na mente das pessoas para conseguir algo delas, vender algo, conseguir algo, fazer com que os outros deixem a gente entrar em um lugar, em outras palavras, manguear é persuadir.

Dora “mangueia” pessoas para vender fotos que ela tira do seu smartphone transformada em imã de geladeira. Tipo ela não vende o imã em si, sim a história da foto. E mais que isso, ela sente que muitas pessoas compram suas fotos muito mais por simpatizarem e até admirar a coragem que Dora tem de ser livre e viajar o mundo de bicicleta do que pelo suvenir em si.

Por fim, o texto que escolhemos para encerrar esse episódio é denominado “Para tirar o dinheiro da equação”. Segundo Dora, esse texto gerou muita polêmica, pois foi mal interpretado. O foco do texto é falar sobre quando a gente experimenta viver algum tempo sem dinheiro, a gente começa a perceber que ele é uma invenção recente na humanidade, uma tecnologia social, um conceito, uma imaginação (igual à fronteiras).

Na natureza e nas relações humanas as coisas não circulam necessariamente com dinheiro. A gente tem a noção de que nós contribuímos para o bem estar só social, mas dinheiro é só uma crença. Pessoas que nascem com uma herança e ficam rendendo isso no mercado de investimentos, não estão produzindo nada, e consequentemente faz com que dinheiro não seja um bom medidor de que nós contribuímos com a sociedade

Dora confessa que por muito tempo teve traumas com dinheiro. Para ela dinheiro sempre foi sinônimo de briga, falta, angústia, escassez. Como ela viveu um tempo sem dinheiro, ela se libertou dessa má relação com dinheiro.

Uma lição que ela aprendeu é de que nós precisamos desconstruir essa crença de que dinheiro é “sacrificoso”. Se a gente tira a carga emocional negativa, a gente consegue fazer dinheiro de uma forma mais prazerosa, do que pessoas que se sacrificaram por dinheiro, por tê-lo posto em primeiro lugar

O medo move o capitalismo. O medo é uma força muito poderosa, tanto para nos travar, quanto para nos mover na direção errada. Quando a gente entende que não precisamos ser servos do dinheiro, a gente pode ser mais feliz. E para além disso, “ter muito dinheiro” é uma excelente forma de ajudar pessoas, pois nós podemos impactar muitas pessoas.

Pessoas que olham muito para acúmulo monetário, podem desenvolver uma uma falsa sensação de segurança, pois a qualquer momento pode vir uma crise o dinheiro desvaloriza. Por outro lado, viajar muito tempo sem dinheiro exige muita energia, e o dinheiro traz um conforto que a gente pode se colocar em primeiro lugar e ter mais energia para ser mais produtivo.

Minha contribuição ao parágrafo anterior é focarmos na antifragilidade, mas por hora eu não vou me aprofundar nisso não.

Dora conta um último acontecimento onde ela organizou um financiamento coletivo para arrecadar R$ 14.000,00 para ajudar uma comunidade a cavar um poço no Vale do Catimbau. Ela se matou por 2 meses para ter aquela quantia de dinheiro e de repente ela possuiu esse dinheiro por poucos minutos e depois enviou para a comunidade.

Foi uma experiência tão ruim que ela nem sentiu felicidade em ter conseguiu alcançar a meta. Foi tão rápido transferir o dinheiro que ela viu que não precisava gastar tanta energia daquela forma. Ela prometeu para si mesma que nunca mais capitaneava um financiamento coletivo e só ajudaria pessoas novamente quando tivesse condições próprias para tal.

E assim, conhecendo uma figura que cruza o país de bicicleta e dorme em uma rede que ela amarra em árvores e postes, se protegendo do relento com um varal e lona de caminhão, que eu tive uma importante lição sobre dinheiro. Não devemos nos culpar ou nos sentirmos egoístas por querermos acumular dinheiro, mas sim ter um foco claro de qual é o papel dessa energia em nossas vidas, afinal dinheiro é energia e se a gente trata isso de qualquer forma, podemos ficar eletrocutados.

Como eu disse no início: é justamente de onde a gente menos espera, que não acontece porra nenhuma!  Felizmente esse não foi o caso aqui.

Gostou dessa reflexão? Ouça o episódio 033 na íntegra aqui:

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