Podcast Nômade 035: Nova Carreira, por Kalebe Paiva
Entrevistados: Kalebe Paiva
Episódio lançado em: 14/10/2019
Música de Abertura: - Fall Down - (Toad the wet sprocket)

A lembrança imediata que eu tenho do episódio de número 035 do Podcast Nômade são 2 pontos. O primeiro que se refere justamente a uma dessas histórias de vida, de carreira, de trabalhos que a gente nem imagina que existem, mas que nos permitem viajar o mundo, e o segundo ponto se refere justamente à antipatia que muitos viajantes sentem no que diz respeito ao termo “nômade”.

Neste episódio eu conversei com o Kalebe Paiva. Atualmente trabalhando como fotógrafo profissional de surfing, especializado em fotografia dentro d’água, Ou pelo que eu entendi, tem o fotógrafo que fica na areia, mas também tem um tipo de fotógrado que veste uma roupa especial e vai para dentro do mar com um equipamento (obviamente) impermeável. Pelo que eu entendi, Kalebe é esse profissional.

Kalebe é justamente um desses exemplos de pessoa que conseguiu transformar a paixão em profissão. Natural de Santa Catarina, e surfista a mais de 16 anos, Kalebe teve uma adolescência dividida entre videogames/computadores, e esportes mais radicais. Quando chegou a hora de decidir a faculdade, ele teve que decidir entre algo relacionado a programação, ou educação física.

Ao se imaginar passando grande parte da sua vida defronte à tela de computadores, Kalebe optou por educação física, porém hoje percebe a grande ironia que sua decisão lhe causou, ao se ver hoje trabalhando horas a fio editando as fotos que ele tira de outros surfistas, para vender. No final, a tela do computador venceu.

Esse foi o primeiro ponto que me chamou muita atenção na minha conversa com Kalebe. Eu não conhecia nada do mundo do surf. Das boas práticas do esporte, dos equipamentos, da competitividade, dos circuitos profissionais e campeonatos ao redor das ondas globais. Se você é feito eu, saiba que existe todo um mundo mercadológico.

E o Kalebe acompanha esse circuito, viajando o mundo para surfar, e principalmente registrar fotos de outros surfistas. Assim, ele segue circulando o mundo explorando as mais diversas praias e acumulando países

Claro que eu não era um completo ignorante quanto ao mundo do surf. Eu cresci com uma prima que surfava, e tive um certo contato com pranchas e roupas de mergulho. Em algum momento eu devo ter passado os olhos por revistas ou canais especializados. O fato é que o mercado do surf não é novidade, apenas algo que nunca tinha entrado no meu campo de interesse.

Uma vez eu cheguei até a conhecer o CEO de uma startup para vendas de fotos de surf, e esse episódio me fez respeitar ainda mais a grandiosidade desse mercado. Eu apenas não tinha tido o esforço de olhar atentamente para ele. E é justamente nessas horas que eu percebo o privilégio que fazer esse trabalho com o Podcast Nômade proporciona. Talvez eu nunca tivesse a oportunidade de ter contato com esse mundo, se não fosse através das palavras do Kalebe.

Uma coisa que eu simplesmente não imaginava era a competitividade acirrada entre surfistas. Não apenas no desempenho, mas também no que diz respeito ao territorialismo. Kalebe fala que quem é de fora, pode achar que surfistas são tudo gente boa, mas muitos surfistas são bem “bicho das cavernas”, afinal de contas, a onda é uma só, e no fim, surfista não quer muita gente na água não. Ele quer ter aquele espaço só para ele poder surfar sossegado, e muitas pessoas na água atrapalha o desempenho.

Esse é um dos pontos que cansa um pouco Kalebe, que alimenta a vontade de um dia ser cineasta e documentarista. Afinal de contas, ilude-se quem acha que transformar uma paixão em uma profissão é apenas positivo. Eu já ouvi vários relatos de pessoas que se deprimem ao transformar suas paixões em profissões. Eu mesmo passei por isso com a música e o Kalebe revela que se sente triste por ter em um hobbie (fotografia de surf) sua principal atividade comercial.

Talvez seja um puro padrão de pessimismo na forma de se expressar, talvez fosse realmente um desabafo profissional, porém Kalebe expõe que o mercado fotográfico do surf é uma vida falida. Ele até brinca que costuma falir 2 vezes por ano, principalmente no que diz respeito à comprar equipamentos para melhorar seu trabalho. Além disso, a própria característica de necessitar se mudar de local para experimentar otimizar a venda das suas fotos, aumenta os custos da sua vida.

Não existem mais revista especializadas em surf, os sites e canais são blindados em panelas profissionais, se tornando quase impossível comercializar seu trabalho por esses caminhos. Restou à Kalebe descobrir um novo público para dar vazão ao seu trabalho. Ele acabou se descobrindo em pessoas comuns que gostam de surf, como engenheiros, ou arquitetos e não em surfistas profissionais

Segundo Kalebe, comprar novas câmeras é uma doença, pois sempre tem alguma novidade interessantíssima, porém enquanto profissional, é importante saber a hora de parar de investir em equipamento. Ele só começou a ganhar dinheiro mesmo quando ele parou de ficar comprando câmeras. Para além disso, uma dica que ele dá é justamente que a restrição do equipamento pode melhorar o processo criativo, na hora de fotografar.

Apesar disso tudo, o acesso à equipamentos profissionais ou semi-profissionais é cada vez mais facilitado e hoje, Kalebe percebe como grande concorrente dele justamente as namoradas dos surfistas.

Isso me lembra de uma entrevista que uma vez eu li, onde o CEO da Netflix Reed Hastings uma vez comentou que não foca na Disney+ como grande concorrente, mais sim em jogos como Fortnite. De fato, se pararmos para refletir, a Netflix está na concorrência pela atenção do consumidor, e joguinhos estão conquistando fatias importantes desse mercado.

Ao se dar conta que a concorrência do Kalebe são as namoradas dos surfistas, Kalebe fica mais atento a como ele pode se melhorar enquanto profissional e é justamente dessa auto-observação que ele melhora sempre.

O segundo ponto que me chamou a atenção no papo com o Kalebe foi ao perceber que ele tinha uma certa relutância ao se identificar como nômade. De imediato, eu pensei que poderia ser apenas alguma espécie de timidez ou até temperamento forte do Kalebe, mas com o tempo, eu fui percebendo essa aversão em diversos outros entrevistados. Uma aversão talvez ao modismo do estilo de vida nômade.

Muitas pessoas alcançam esse estilo de vida e passam a comercializar estratagemas de como outras pessoas podem ser nômades também. Livros, cursos, aulas. E acaba que não é todo viajante que se sente confortável com essa tendência.

Kalebe acha irresponsável vender o nomadismo como uma verdade absoluta, um sonho, e de fato, é compreensível. Minha humilde opinião a esse respeito é que algumas pessoas que vendem serviços e infoprodutos para ajudar outras na transição da vida nômade, mesmo sendo extremamente cuidadosas nas palavras, podem sim transmitir a dupla impressão de que a vida de pessoas sedentárias está sendo desperdiçada e portanto, perde o valor. Só quem aproveita a vida são os viajantes.

Outras pessoas são mais escrachadas e escancaram mesmo que os sedentários realmente estão desperdiçando suas vidas ao se prenderem a caminhos sem destinos. É verdade? É mentira? Cada pessoa toma para si o quanto se identifica nesse discurso de que só quem vive a vida são nômades, mas uma coisa é certa… Essa é uma afirmação dura de se ouvir e talvez a antipatia ao se identificar como nômade possa estar surgindo dessa dureza, afinal de contas, nem todo mundo lida tão bem com os próprios privilégios em um mundo tão desigual.

Mas essa é a minha opinião. Humilde.

Gostou dessa reflexão? Ouça o episódio 035 na íntegra aqui:

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