Podcast Nômade 036: Ano Sabático, por Rocío e Wagner
Entrevistados: Rocío e Wagner
Episódio lançado em: 21/10/2019
Música de Abertura: - Crystallize (Lindsey Stirling)

Começar um projeto é se jogar no desconhecido. Escrever um livro, produzir podcasts, ter seu próprio canal no youtube ou fazer textos em um blog ou postagens periódicas na sua rede social favorita. Te exige disciplina e constantemente vai te puxando para caminhos que você não imaginava que iria trilhar. Você precisa constantemente recalcular a rota para não se ver perdido, mas uma coisa é certa: Você não sabe a pessoa que você vai ser em 6 meses, um ano, ou até 10 anos.

As pessoas que passam por você te mudam. As críticas que você recebe, os elogios, os apoios, os momentos de indiferença e até de esquecimento. Tudo isso vem me deixando mais perceptivo aos outros. Aos momentos diferentes de vida. Às vezes eu entrevisto casais que vivem dilemas que eu já vivi. Às vezes eu entrevisto pessoas que me inspiram e fazem com que eu olhe para mim mesmo e reflita como eu posso chegar aonde aquela pessoa chegou em alguns anos.

Tem pessoas que me despertam inveja de ter alcançado conquistas que eu gostaria de alcançar muito mais jovem que eu. Tem outras pessoas que só vieram alcançar essas mesmas conquistas 1… 2 décadas depois, e põem novamente minha cabeça no lugar, para a realidade que tudo que tiver de acontecer, acontece no seu devido tempo. Cada vida é única e não adianta viver se projetando na vida dos outros.

Todas as pessoas que passam pela história do Podcast Nômade impactam minha vida. Porém algumas vezes eu estou mais atento a isso. Algumas vezes eu só me dou conta meses depois. Eu não percebi o impacto da entrevista da Rocío e do Wagner no momento que eu os entrevistei, porém meses depois de produzir o episódio 036 eu já era uma pessoa diferente, e ao escutar este episódio novamente para escrever essas linhas, eu senti...

Wagner, um gaúcho de Porto Alegre e Rocío, uma argentina de Buenos Aires, porém “manezinha da ilha” por ter crescido em Florianópolis, desde que chegou por lá aos 5 anos de idade. Esse casal se conheceu em um resort enquanto ambos trabalhavam no setor turístico, na Praia do Rosa.

Juntos a mais de 4 anos, eles tiveram a oportunidade de resgatar uma cidadania italiana que Rocío tinha direito devido a sua árvore genealógica, e após um rigoroso processo burocrático, eles se mudaram para a Irlanda, onde passaram cerca de 3 anos. A ideia é bem comum até… Ir para a Irlanda estudar inglês, conseguir um visto de meio período para trabalhar, e ir estruturando a vida.

Nos primeiros meses Rocío começou a trabalhar em um café, como barista, enquanto Wagner atuou como chefe em um restaurante. Foi aí que eles realmente desenvolveram a fluência na língua e após 10 meses, ambos começaram a trabalhar no Youtube.

O trabalho em muitos casos é essencial para destravar a fluência, pois Dublin tem uma comunidade brasileira muito grande. Estima-se cerca de 20.000 brasileiros vivendo por lá. Isso se deve, pois o mercado de intercâmbio é aquecido e se os intercambistas que não se expuseram à língua inglesa podem muito facilmente se ver em bolhas de brasileiros novamente.

A comunidade brasileira também é muito solidária, e isso faz com que muitas pessoas de diversas regiões do Brasil se conectem em Dublin, mas para além, a presença de brasileiros é tão forte naquele país, que muitos irlandeses acabam aprendendo e falando português. A própria Rocío confirma que só aprendeu inglês mesmo, por trabalhar como garçonete no café. Ou ela falava ou ela falava, não tinha outra escolha.

Após 3 anos morando no frio britânico, a constante falta do sol foi deprimindo a experiência deles na Irlanda e de repente eles sentiram a necessidade de fazer uma viagem de longo prazo, para outros lugares mais ensolarados. Foi quando a ideia de tirar um ano sabático começou a brotar.

Aqui eu paro e penso nos meus parágrafos iniciais deste capítulo. Eu tenho esse sonho antigo de morar em um lugar frio, e passar um tempo na Irlanda ou Inglaterra. Quando me deparo com pessoas que passaram por essa experiência e foram pouco a pouco se desencantando com o clima frio, eu me pergunto e esse é um momento que eu também viverei no futuro.

Eu não entendo muito bem pessoas que chegaram até o ponto que muitas vezes eu vejo como sendo a minha linha de chegada e continuando para novos rumos. A Rocío e o Wagner foram “mais umas dessas pessoas”. Eles foram até Dublin, começaram a estruturar suas vidas por lá, e eis que veio um chamado forte. Eles queriam conhecer a Ásia.

Antes de ir tirar um ano sabático na Ásia, eles passaram um período cruzando a Europa em um mochilão de 4 meses, como uma experiência de teste, onde eles puderam aprender de forma prática a calcular quanto eles gastariam por mês enquanto viajantes.

De certa forma isso acabou sendo bem positivo, pois Rocío e Wagner sempre foram bem econômicos, apesar do custo de vida altíssimo em Dublin, e também de se viajar pela Europa. Quando finalmente chegaram à Tailândia, eles sentiram o alívio financeiro imediato.

Em Dublin, um espaço pequeno é cerca de 900 a 1200 euros por mês, enquanto que em Chiang Mai, é possível achar casas no mesmo padrão por apenas 240 euros, além do processo de alugar uma casa ser bem menos burocrático. Geralmente os próprios porteiros dos prédios tem uma tabelinha de preços com e basta usar o passaporte, para alugar um espaço.

A ideia de experimentar um ano viajando, vulgo ano sabático, especificamente na Ásia se deve ao fascínio por culturas repletas de práticas meditativas, retiros e coisas do tipo. Rocío ama o filme baseado no livro “Comer, rezar e amar” e isso inspirou muito eles e sua conexão forte com tudo que envolve espiritualidade.

A madrasta da Rocío era praticante de uma sanga (comunidade budista) e desde os 14 anos Rocío tem um contato com budismo. Seu primeiro retiro de 10 dias foi aos 15 anos, e Wagner se sintonizou neste caminho. Ele relata que a prática espiritual é a todo momento, e esse período sabático é uma forma de estar constantemente atento. De certa forma, retiros são formas intensivas de estarmos atentos a nós mesmos e a vida nômade é uma forma um pouco mais diluída de praticar essa auto-observação.

Para eles, se permitir um ano sabático é uma forma de ser nômade, com um pouco mais de intensidade nessa prática contemplativa. Por fim, calhou que eu dei muita sorte de conseguir entrevistá-los, pois ambos estava a poucos dias de se isolar em um monastério budista para praticar um retiro de total silêncio conhecido como Vipassana.

Gostou dessa reflexão? Ouça o episódio 036 na íntegra aqui:

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