Capítulo 040 - Nômade Bootstrap, por Fernando Kanarski
Entrevistado: Fernando Kanarski
Episódio lançado em: 18/11/2019
Música de Abertura: - Start Wearing Purple (Gogol Bordello)

Em quase todas as minhas semanas eu tenho algum momento que eu acho que não vou conseguir dar conta. Eu olho o calendário, vejo quando será a próxima segunda-feira, conto quantos dias faltam. Tem semanas que simplesmente parece que eu não vou conseguir.

Apesar de tudo, salvo um período de 40 dias que eu fiquei isolado em Sunny Beach, Bulgária entre maio e junho de 2019, e por consequência, eu falhei por 2 semanas com a audiência do Podcast Nômade e também meu recesso de 15 dias em dezembro de 2020 (e de onde também decidi, daqui para frente me dar 2 semanas de folga por ano, com o Podcast Nômade, eu nunca falhei em entregar episódios novos toda segunda-feira.

Com o tempo, eu fui ficando calejado dessa ansiedade de não conseguir dar conta, e uma calmaria começou me transmitir um sentimento de que “vai aparecer alguém para eu entrevistar”. Um desses casos foi o Fernando Kanarski. Quando eu subi o episódio 040 para os agregadores de podcast, eu fitei a thumbnail do Kanarski e me dei conta de que essa brincadeirinha de podcast já tinha 40 episódios.

Kanarski é um desses caras que tem o poder de lhe transmitir uma admiração que lhe  conduz a pensar “eu quero ser feito ele, quando eu crescer...”. Pelo menos para mim. Para quem já teve a oportunidade de ouvir este episódio, ou segue ele em seus canais, já percebeu que o cara gosta de dar aquela ostentada de leve, mas nem de longe é por isso que eu admiro ele (alias… ele lado até me repele um pouco…). Eu tenho uma profunda admiração pelo pouco do que eu conheço do Kanarski por uma única palavra: organização.

Quem já chegou até esse parágrafo, já deve ter lido algumas vezes que a pandemia da Covid-19 me colocou em uma coleira. Eu aproveitei esse período e escrevi esse livro, iniciei o estudo em desenvolvimento de aplicativos e plataformas, fiz alguns cursos, organizei minha empresa de edição de podcasts (recém batizada “Fonohouse”), fechei a boca e emagreci.

Horas antes de escrever esse capítulo, eu pus o lixo para fora, quando passou uma vizinha e comentou o quanto eu tinha emagrecido, chegando a falar que eu estava visivelmente magro. Eu li muito e segui conselhos de outros nômades sobre como organizar minha vida para ter rendimentos remotos.

Enfim, eu aproveitei a coleira para tentar organizar ao máximo minha vida, para quando o mundo abrisse novamente, e aproveito para relatar aqui, afinal de contas a ideia desse livro é resumir os 100 primeiros episódios de um podcast criado por uma pessoa que queria ser nômade, e sua evolução nessa jornada.

Fernando Kanarski foi um cara que me inspirou muito nesse período que o Coronavírus me manteve na coleira.

Fernando é um exemplo de como nós podemos dar sustentabilidade e perpetuar o estilo de vida nômade. Não precisamos apenas nos adaptarmos para esse estilo de vida. Foi conhecendo melhor o Kanarski que eu também me dei conta que virar nômade não precisa ser o propósito final. É apenas mais um sonho a ser realizado. Nós podemos continuar crescendo, prosperando, inclusive porque em algum momento nós poderemos querer voltar a termos uma vida sedentária.

Foi o Kanarski que pela primeira vez me fez dar conta de que da mesma forma que precisamos abrir mão de casa, carro, entre diversas outras coisas para nos adaptarmos à uma vida nômade, fazer o movimento contrário também exige preparo, principalmente se quisermos comprar uma casa, carro, entre outras coisas que a vida sedentária exigem.

Kanarski trabalha como gestão de tráfego no marketing digital oferecendo seu serviço para seus clientes e mais recentemente começou a ensinar outras pessoas sobre seu ofício. Inclusive eu sou aluno dele (fazendo um jabá de leve). Bem basicamente, ele é o cara que cuida para que o dinheiro que seus clientes investem em anúncios do google sejam o mais otimizado possível.

Em suas próprias palavras, Kanarski se sente sortudo de fazer tudo se alinhar, conseguindo viajar pra onde queria, ao mesmo tempo em que tem um bom trabalho, tanto em gestão de tempo, quanto em rendimento.

No momento da entrevista, ele já contabilizava por volta dos 775.00 km rodados ao redor do mundo. Isso dá  quase 20 voltas no planeta Terra. Ele começou essa história de ser nômade sozinho. Não leu livros, ou fez cursos. Ele simplesmente raciocinou como ele poderia organizar esse estilo de vida. Para Kanarski, a essência do nomadismo é ter dinheiro e liberdade de tempo suficiente para ir para onde quisermos.

Ele já está viajando a quase 5 anos e uma coisa que me chamou muito a atenção foi perceber que ele começou a viajar com 30 (minha idade no momento em que eu entrevistei ele e escrevi esse livro). Claro que eu já vinha se preparando há alguns anos antes, porém isso me fez me sentir muito bem, pois eu sempre me perguntava se eu já não estava velho demais para começar a me organizar.

Kanarski largou seu emprego fixo em agência em 2015, após fazer uma reserva financeira de aproximadamente 6 meses. Passados 5 anos, ele comenta que nunca precisou tocar no seu saldo de emergência. Que aliás, seu saldo cresceu ao ponto de que hoje ele conseguiria viver 6 anos sem trabalhar (ou uns bons 3 anos, se quisesse manter o estilo de vida atual). Além disso, hoje ele ainda consegue gerenciar melhor seu tempo e trabalha até menos do que ele trabalhava na época do seu emprego fixo de agência.

Outro ponto legal é que ele relata que veio de família humilde e isso lhe ajudou a botar na cabeça é que ele não vai ser nômade para passar perrengue. Eu passei perrengue e sei do que ele está falando. Compreendo quem simplesmente cata uma mochila e se joga no mundo. Acho poético quem admira essa vontade incontrolável de explorar o mundo da forma que for, mas eu compreendo bem o Kanarski.

Não que eu faça questão de postar fotos tomando champagne na classe executiva ou coisas do tipo, porém entre escolher passar horas no acostamento de uma estrada esperando uma alma solidária que queira me dar uma carona, ou ter um embarque prioritário em uma classe executiva, eu confesso que estou com o Kanarski.

Uma coisa que muitas pessoas que estão nesse processo de transição vivenciam é a angústia de não saber quando estamos finalmente prontos para nos jogarmos no mundo. Kanarski deixa 2 dicas que nos ajudarão a saber se estamos preparados para a vida na estrada:

Dica 01: Se você precisasse não trabalhar mais, você tem dinheiro para viver pelos próximos 6 meses?

Dica 02: Teus amigos e familiares te apoiam?

Em relação à primeira dica, eu refleti bastante e cheguei a uma conclusão interessante. A questão não se trata de quanto dinheiro conseguimos juntar, mas sim de aprendermos à nos organizar. O que eu gasto de dinheiro por mês não é o mesmo que você gasta. “Juntar dinheiro para 6 meses” exige antes de tudo sabermos quanto gastamos por mês.

Além disso, o simples fato de conseguirmos juntar dinheiro, é um sinal claro que já dominamos a habilidade de aprender a viver com menos do que a gente ganha. Juntar dinheiro para 6 meses na realidade é um exercício de educação financeira, onde aprendemos a ter nossos gastos na palma da mão, e por consequência não perdemos o controle.

Não importa quanto dinheiro você consegue juntar antes de juntar, mas quanto dinheiro você consegue fazer por mês, de forma remota. Agora que se de fato conseguimos juntar dinheiro para minimamente 6 meses, significa que aprendemos a ter educação financeira.

Isso para não falar da tranquilidade de que se acontecer qualquer coisa, nós temos uma sobrevida, e ter uma sobrevida nos dá a serenidade para termos uma mente iluminada e conseguirmos pensar com mais clareza sobre como poderemos contornar quaisquer adversidade.

Já em relação à segunda dica, sobre o suporte da família e amigos, eu percebo que Kanarski se refere ao ponto de vista externo. Às vezes quem nos vê de fora, consegue enxergar falhas que nós achamos irrelevantes, ou nem as percebemos. Para Kanarski, receber o suporte aberto da família e amigos significa que temos habilidades suficientes para iniciarmos no nomadismo.

Outro ensino maravilhoso foi ouvir que Kanarski NÃO prioriza experiências, pois priorizar significa dizer que você tem que fazer uma escolha, e no caso do Kanarski, ele não está abrindo mão de nada. Ele trabalha e ganha o suficiente para aproveitar a vida no presente, sem que isso implique que ele não terá dinheiro no futuro para comprar uma casa (por exemplo).

Para além, a realidade é que a vida nômade é muito legal nas redes sociais, mas no dia a dia tem muito sofrimento, perrengue, problema psicológico. Para ele, todo mundo que tem uma vida nômade bem lá no fundo sabe que em algum momento aquilo pode parar, e Kanarski pensa muito nisso. No momento em que ele vai parar e constituir uma família com filhos, em algum lugar fixo.

E foi exatamente isso que fez com que eu o admirasse tanto. O cara é organizado e mira lá na frente, onde ele vai querer ter dinheiro para ter sua casa, seu carro, indo na contramão das pessoas que só pensam na experiência em si. Ele trabalha para viver essa vida, mais pensando no futuro, pois ele sabe que a vida nômade vai acabar para ele.

Ainda falando de educação financeira, Kanarski revela que ter metas financeiras bem agressivas lhe ajuda a viver plenamente o presente, se preparando para o futuro. Ele sempre quer aumentar seu faturamento. Ele investe cerca de 20% do que ganha, e além disso, se permite usufruir mais do seu dinheiro a medida em que este aumente, sem que o aumento de gastos seja proporcionalmente superior ao aumento de ganhos.

A maioria dos brasileiros sãos movido por dívidas. Nós compramos um carro, uma casa para aí sim pagar isso. A meta agressiva do Fernando NÃO é pagar boletos, mas sim juntar mais grana! Ele fala que tem que equilibrar trabalho e vida nômade. Ele nunca prospectou seus clientes, mas tenta ser cauteloso com o que posta para as pessoas não acharem que ele está jogando dinheiro fora. O lado dele dar resultado para seus clientes o ajuda nesse aspecto.

Quando você está remoto, “entregar no prazo” é fundamental, para passar a mensagem de que o cliente pode contar com você! Mas que também não devemos ficar paranóicos, pois o cliente que desconfia constantemente expõe muito mais sobre a necessidade de controle do cliente do que sobre a responsabilidade do nômade que presta o serviço.

Muito disso se deve também para a percepção de viagem que uma pessoas que não é nômade tem sobre a viagem em si. Para sedentários, viajar é curtir adoidado, visto que muitas vezes eles só tem um período de férias no ano, e portanto ele tem que aproveitar ao máximo, e isso faz com que clientes sedentários achem que a vida nômade é uma eterna curtição.

Um último aspecto relevante da entrevista é que o Kanarski aponta que o nomadismo leva a gente ao extremo. Ele já viu gente que surtou, casais que se separaram… o psicológico entra em parafuso. Quando ele sente que vai surtar, ele simplesmente volta pro Brasil.

Particularmente eu acho inteligente voltar pro Brasil, pois além de recarregar as energias se reencontrando com família e amigos, eu logo me sintonizo com as desigualdades socioeconômicas da população brasileira e lembro porque eu quero sair daqui.

Gostou dessa reflexão? Ouça o episódio 040 na íntegra aqui:

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